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domingo, 23 de agosto de 2026

#SendoProsperidade com Mariângela Borba

🌻 #SendoProsperidade

O diploma, a palavra e a responsabilidade

Por Mariângela Borba

Em 1999, concluí o Magistério no Colégio de São José. Foi também o ano em que prestei meu primeiro vestibular. Ingressei em Letras e, paralelamente, fazia meu Teachers Training Course, além dos estágios. Anos depois, em 2006, concluí Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, na Universidade Católica de Pernambuco, pioneira na formação em Jornalismo no Estado, desde 1961.

Não cheguei ao Jornalismo por uma linha reta.

Cheguei pela educação, pela literatura, pelo ensino, pela leitura, pela prática e por uma curiosidade que nunca aprendeu a ficar quieta.

E continuo aprendendo.

Minha formação também passou pela especialização em Cultura Pernambucana, realizada quando eu atuava no Ministério da Cultura e integrava o Conselho de Cultura do Recife como representante dos produtores culturais.

Passei por redação, rádio, produção, edição, assessoria de comunicação, gestão pública e comunicação institucional. Trabalhei no Tribunal de Contas de Pernambuco, no Ministério da Cultura e em diferentes frentes da comunicação. Já exerci, inclusive, uma função que hoje parece quase arqueológica: a de copidesque.

Reviso textos. Escrevo. Edito. Produzo. Investigo. Faço comunicação.

E, paralelamente, estudo Psicanálise.

Freud, Lacan, Jung, Winnicott e tantos outros me ajudam a compreender uma coisa que o Jornalismo sempre soube, ainda que nem sempre consiga praticar: a palavra nunca é neutra.

Ela produz sentidos.

Constrói imagens.

Organiza narrativas.

Pode iluminar.

Mas também pode manipular.

Talvez seja justamente por isso que o debate sobre a volta do diploma de Jornalismo tenha me provocado tanto.

Em 1969, durante a ditadura militar, o Decreto-Lei nº 972 tornou obrigatório o diploma e o registro profissional para o exercício do Jornalismo.

Em 2009, o Supremo Tribunal Federal decidiu que a exigência do diploma era incompatível com a liberdade de expressão e com a livre manifestação do pensamento. O diploma não voltou.

Mas, dezessete anos depois, a pergunta voltou.

Durante uma sessão do STF, em 18 de agosto, os ministros Flávio Dino e Alexandre de Moraes defenderam a possibilidade de rediscutir aquela decisão. As declarações ocorreram poucos dias depois de uma operação determinada por Moraes atingir a fonte do jornalista maranhense Luís Pablo, episódio que provocou críticas e questionamentos sobre os limites da proteção constitucional ao sigilo da fonte.

Dias depois, o artigo do filósofo, professor e colunista do O Globo Pablo Ortellado trouxe justamente o título “Sigilo de fonte está ameaçado”.

Não é pouca coisa.

Porque estamos falando de uma das garantias mais importantes do exercício jornalístico.

E então aparece a velha pergunta:

Diploma para quê?

A resposta mais simples seria:

Para nada, se entendermos Jornalismo como sinônimo de “produzir conteúdo”.

Qualquer pessoa deve poder falar.

Criar um blog.

Abrir um canal.

Produzir vídeos.

Escrever nas redes.

Comentar política.

Defender suas ideias.

Discordar de jornalistas.

A liberdade de expressão precisa existir para todos.

Mas produzir conteúdo não é necessariamente fazer Jornalismo.

E talvez tenhamos confundido essas duas coisas.

Eu passei quatro anos na faculdade aprendendo que notícia não é opinião.

Que fonte precisa ser checada.

Que informação precisa de contexto.

Que uma versão não é necessariamente o fato.

Que o contraditório não é um detalhe.

Que uma informação pode destruir reputações.

Que publicar envolve responsabilidade.

Mas também aprendi, com a própria história da profissão, que o Jornalismo brasileiro nasceu muito antes das universidades.

Meu bisavô, Edmundo Celso, jornalista por muitos anos do Diário de Pernambuco, intelectual, grande enxadrista e um dos fundadores da Associação de Imprensa de Pernambuco, pertencia a uma geração em que o exercício do Jornalismo não dependia da formação universitária específica que conhecemos hoje.

Mas sua biblioteca também carrega uma história que minha família nunca esqueceu.

Durante a ditadura militar, quando militares realizavam buscas em nossa casa, minha bisavó Julieta precisava esconder — e, em algumas ocasiões, destruir — parte daquele acervo. Naquele período de repressão, livros, revistas e outros materiais considerados subversivos podiam despertar a atenção dos órgãos de vigilância e repressão.

Minha mãe contava que ela e minha tia, ainda pequeninas, eram mandadas para dentro de casa enquanto minha bisavó fazia um buraco no quintal, colocava livros e revistas e os queimava.

Entre eles estavam revistas russas que pertenciam ao meu bisavô.

É difícil imaginar hoje uma família queimando livros no próprio quintal para evitar que eles fossem encontrados pelo Estado.

Mas foi assim que minha família aprendeu, de maneira muito concreta, que o poder também pode ter medo daquilo que as pessoas leem.

E talvez seja por isso que, quando falamos em liberdade de imprensa, liberdade de expressão e circulação de informação, eu não consiga tratar essas palavras como conceitos abstratos.

Na minha família, elas tiveram consequências reais.

Livros foram escondidos.

Revistas foram queimadas.

Memórias precisaram ser protegidas.

E, paradoxalmente, aquilo que se tentou destruir continuou sendo transmitido.

Meu bisavô lia muito. Muitos dos livros que restaram ainda estão comigo. Entre eles, volumes da coleção de ouro de Monteiro Lobato, infantil e juvenil, em capa dura, e um exemplar de Don Quijote de La Mancha, no espanhol em que a obra foi originalmente publicada.

Ele nasceu em 1901.

Era de uma geração para a qual a formação intelectual acontecia por caminhos muito diferentes dos atuais.

E ele lia.

Muito.

Não só livros, mas os jornais diários. A leitura era apenas parte daquele universo.

Meu bisavô convivia com intelectuais e artistas como João Cabral de Melo Neto, Ascenso Ferreira, Manuel Bandeira, Mauro Mota, Joaquim Cardozo e Vicente do Rego Monteiro.

Minha mãe contava que muitos deles almoçavam na casa da família.

E adoravam a comida preparada pela minha bisavó, Julieta Santiago, a quem meu bisavô chamava carinhosamente de Júlia.

A história da imprensa também é feita de mesas.

De conversas.

De livros.

De arte.

De encontros.

De divergências.

De repertório.

Talvez seja difícil imaginar hoje, mas aquela formação intelectual também acontecia na circulação entre diferentes saberes e pessoas.

Vicente do Rego Monteiro, por exemplo, percebeu em minha mãe uma vocação para as artes e a incentivou a estudar na Escola de Belas Artes de Pernambuco (UFPE). Ele próprio teve uma formação artística profundamente ligada a Paris e ao ambiente modernista europeu.

Minha mãe contava uma história curiosa: Vicente tinha o hábito de andar com pão francês embrulhado num papel de pão e guardado no bolso do paletó, costume que teria trazido de sua longa vivência em Paris.

São pequenas histórias familiares.

Mas elas me fazem pensar que repertório não se fabrica apenas dentro de uma sala de aula.

E essa tradição de encontros também atravessou gerações.

Minha avó, Cármen, costumava oferecer almoços dominicais em sua casa. Ela não cozinhava, mas contava com Luzia, que aprendeu a arte culinária com a minha bisavó. Foi assim que, desde pequena, convivi com pessoas de universos muito diferentes — de Luiz Gonzaga a Vanda e Renato Phaelante, passando pelo padre Guedes — e até assisti a missas em latim —, chegando a Marco Maciel, também amigo de juventude de vovó desde os tempos da Casa do Estudante de Pernambuco, instituição da qual ela chegou a ser presidente.

Eu cresci nesse ambiente.

Entre livros, política, cultura, Jornalismo, arte, comida, conversa e gente.

Talvez por isso eu desconfie tanto das tentativas de reduzir formação a um pedaço de papel.

Mas também desconfio da ideia oposta: a de que experiência, sozinha, substitui formação.

Não substitui.

Diploma e formação intelectual não são a mesma coisa.

Mas também não são coisas opostas.

O diploma não transforma ninguém automaticamente em bom jornalista.

Não impede erro.

Não impede má-fé.

Não impede interesses econômicos.

Não impede manipulação.

Mas uma formação específica oferece instrumentos técnicos, teóricos e éticos para exercer uma atividade que lida diariamente com algo extremamente poderoso:

a informação pública.

Apuração.

Checagem.

Investigação.

Contexto.

Ética.

Responsabilidade.

Interesse público.

Tudo isso importa.

E importa ainda mais quando a informação passou a circular na velocidade de um clique.

Talvez seja por isso que a discussão não possa ser reduzida a “diploma sim” ou “diploma não”.

Até porque existe uma questão que raramente aparece com a mesma força:

quem já exerce a profissão de forma séria há décadas faz o quê?

É perfeitamente possível pensar em regras de transição que reconheçam a experiência profissional de quem já está no mercado, sem transformar a ausência do diploma em uma autorização eterna para que qualquer pessoa se apresente como jornalista.

Aliás, esse debate já mostrou que há alternativas.

Outras profissões encontraram formas de reconhecer experiência, regulamentar o exercício e proteger tanto os profissionais quanto a sociedade.

A questão, portanto, não deveria ser criar uma barreira artificial.

Deveria ser estabelecer critérios democráticos, transparentes e responsáveis.

E aqui aparece outro problema.

Hoje, um único profissional pode ser contratado para apurar, entrevistar, fotografar, filmar, editar, escrever, apresentar, dirigir e publicar uma reportagem.

Chamamos isso de multimídia.

Às vezes, é inovação.

Outras vezes, é apenas precarização com nome bonito.

A tecnologia pode ampliar a capacidade do jornalista.

Mas também pode ser usada para barateá-lo.

E é aqui que a discussão sobre saúde mental e trabalho, que eu pretendia trazer para esta edição, não desaparece.

Ela apenas muda de lugar.

Porque que tipo de comunicação estamos construindo quando esperamos que uma única pessoa faça o trabalho que antes envolvia vários profissionais?

Até onde vai a multifuncionalidade?

Onde começa a exploração?

Quanto custa, para o trabalhador, essa disponibilidade permanente?

Esgotamento, sobrecarga e Burnout não são apenas problemas individuais. Também podem ser sintomas de ambientes de trabalho que transformam produtividade em valor absoluto.

A própria discussão contemporânea sobre saúde e trabalho — inclusive a que envolve a atualização da NR-1 — nos obriga a olhar para os riscos psicossociais do trabalho. A Organização Mundial da Saúde reconhece o Burnout, na CID-11, como um fenômeno ocupacional associado ao estresse crônico no trabalho que não foi administrado com sucesso.

Ora, quanto de humanidade estamos exigindo que o indivíduo sacrifique para produzir?

E então chegamos à Inteligência Artificial.

Agora podemos produzir, em segundos, textos, imagens, vídeos e vozes que parecem informação.

Mas parecer informação não é ser Jornalismo.

A IA pode ajudar a pesquisar, organizar, comparar, revisar, produzir e ampliar capacidades.

Mas ela não substitui o compromisso de verificar.

Não assume responsabilidade ética.

Não entrevista uma fonte no lugar do repórter.

Não responde juridicamente pela informação publicada.

E, principalmente, não deveria substituir o pensamento crítico de quem assina aquilo que chega ao público.

Reviso textos há anos, desde um tempo nem tão longínquo assim em que ainda não tínhamos Inteligência Artificial generativa para nos dizer se uma vírgula estava no lugar certo.

Havia leitura.

Conhecimento.

Repertório.

Olho humano.

E responsabilidade.

Não significa que devamos rejeitar a tecnologia.

Muito pelo contrário.

Significa saber utilizá-la sem terceirizar a própria inteligência.

Talvez seja justamente isso que esteja faltando em boa parte do debate.

Não estamos discutindo apenas o diploma.

Estamos discutindo quem tem legitimidade para produzir informação pública e sob quais condições.

E essa discussão passa também pela existência de mecanismos de responsabilização profissional.

Eu mesma participei da Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e pelo Direito à Comunicação, em Pernambuco.

Porque defender a liberdade de expressão nunca significou defender a ausência de responsabilidade.

Liberdade de imprensa não é licença para qualquer coisa.

Mas responsabilidade também não pode se transformar em instrumento de controle sobre a imprensa.

O artigo de Pablo Ortellado publicado esta semana em O Globo é importante justamente porque recoloca no centro uma garantia fundamental: o sigilo da fonte.

E o texto do jornalista e cientista político Leonardo Sakamoto, publicado nesta semana, também entra nesse debate ao defender a necessidade de distinguir profissionais de pessoas que simplesmente se apropriam do nome do Jornalismo sem compromisso com seus princípios.

São discussões diferentes.

Mas se encontram no mesmo ponto:

o Jornalismo precisa ser protegido sem que a liberdade de expressão seja sufocada.

Talvez o diploma seja apenas uma parte dessa equação.

Talvez precisemos também discutir regulamentação, conselho profissional, responsabilidade, condições de trabalho, formação continuada, ética, remuneração e proteção das prerrogativas jornalísticas.

Porque não adianta devolver o canudo e manter o profissional sem direitos, sem estrutura, sobrecarregado, precarizado e obrigado a produzir dez funções pelo preço de uma.

Isso não é valorização.

É apenas trocar a embalagem.

Meu bisavô pertenceu a uma geração em que o Jornalismo era exercido em outro mundo, com outras ferramentas, outras redações e outras formas de circulação da informação.

Eu escrevo em outro tempo.

Entre nós, há quase um século de transformações tecnológicas, políticas, culturais e profissionais.

O Jornalismo mudou.

As ferramentas mudaram.

As redações mudaram.

O mercado mudou.

A linguagem mudou.

A tecnologia mudou.

Agora temos Inteligência Artificial.

Mas uma coisa continua exatamente no centro de tudo:

a palavra.

E a palavra pública tem consequências.

Por isso, talvez a pergunta não seja apenas:

Diploma sim ou não?

Talvez precisemos perguntar:

Quem produz informação?

Com que formação?

Em quais condições?

Sob quais responsabilidades?

E a serviço de quem?

Porque o problema não começou quando alguém ganhou um celular.

E também não será resolvido simplesmente entregando um canudo a quem hoje não o possui.

O desafio é maior.

É reconstruir a ideia de que informação é responsabilidade social — e não apenas produto, audiência, influência ou algoritmo.

O diploma pode voltar.

Pode não voltar.

Mas, pelo menos, o tema voltou à pauta.

E talvez já seja hora de pararmos de procurar justificativas para fingir que a formação profissional não importa.

Porque liberdade de expressão é direito de todos.

Jornalismo é responsabilidade de quem o exerce.

E, no fim, talvez a pergunta mais importante não seja:

quem pode falar?

Mas:

quem está disposto a responder pelo que diz?

🌻

Mariângela Borba é jornalista (DRT-PE 4095), especialista em Cultura Pernambucana, produtora cultural, psicanalista em formação, pesquisadora da palavra como território de poder e autora da coluna #SendoProsperidade.