Por Mariângela Borba
Vivemos correndo.
Corremos para cumprir prazos, pagar contas, responder mensagens, produzir mais, comprar melhor, conquistar espaço, garantir estabilidade. Atingir metas!
Corremos tanto que, muitas vezes, esquecemos de perguntar para onde estamos indo.
Recentemente, alguém comentou um dos meus textos dizendo que, na vida moderna, parecemos viver freneticamente atrás do dinheiro, como se ele fosse a receita única da felicidade.
A frase ficou ecoando em mim.
Talvez porque eu não acredite que as pessoas corram, necessariamente, atrás do dinheiro.
Talvez elas corram atrás daquilo que acreditam que o dinheiro possa lhes oferecer.
Segurança.
Liberdade.
Reconhecimento.
Pertencimento.
Controle!
A questão é que, quando transformamos o dinheiro na resposta para todas as perguntas da vida, corremos o risco de esquecer quais eram as perguntas.
Tudo pode ser uma tentativa de domesticar a incerteza. Talvez por isso confundamos, tantas vezes, cuidado com controle. A vida, silenciosamente, nos lembra todos os dias que existe uma enorme diferença entre os dois.
Freud já nos alertava que nem sempre sabemos o que realmente desejamos.
Muitas vezes acreditamos querer um cargo melhor, um carro novo ou uma conta bancária mais confortável quando, na verdade, buscamos algo muito mais profundo: sentir-nos suficientes.
Jung ampliaria essa reflexão dizendo que a individuação é justamente esse caminho de encontro consigo mesmo. Um processo que exige coragem para olhar para dentro e perceber que nem toda falta pode ser preenchida por aquilo que compramos.
Lacan, por sua vez, lembraria que o desejo humano nunca encontra satisfação definitiva em um objeto.
Assim que alcançamos uma meta, outra logo aparece. O vazio muda apenas de endereço.
Já Winnicott talvez nos perguntasse se conseguimos construir, ao longo da vida, um ambiente interno suficientemente seguro para existir sem depender exclusivamente das validações externas.
Talvez seja por isso que duas pessoas possam fazer escolhas completamente diferentes e ambas estarem certas.
Conheço quem dirija, há anos, o mesmo carro com enorme satisfação.
Conheço quem celebre a conquista de um veículo novo depois de muito esforço.
Há quem conserte um objeto antes de pensar em substituí-lo.
Há quem reutilize um simples pote de manteiga para preparar um cuscuz no micro-ondas e sinta uma alegria quase infantil ao perceber que ele ainda tem utilidade.
Há quem invista em conforto.
Há quem invista em experiências.
Há quem guarde.
Há quem compartilhe.
Nenhuma dessas escolhas, isoladamente, revela caráter.
Revela história.
Revela valores.
Revela a forma como cada um aprendeu a lidar com a escassez, com o desejo e com a própria ideia de segurança.
O cantor Falcão costuma brincar dizendo que "dinheiro não é tudo, mas é 100%" ou que "a burguesia fede, mas tem dinheiro pra comprar perfume".
Rimos porque existe verdade nessas provocações.
Mas esta não é uma discussão sobre capitalismo ou comunismo. Tampouco sobre acumular ou consumir. Há pessoas extremamente generosas que possuem muito.
Há pessoas profundamente apegadas que possuem pouco. A questão parece estar menos na quantidade de bens e muito mais no lugar que eles ocupam dentro de nós.
Como lembrava Jung:
"Enquanto você não tornar consciente o inconsciente, ele dirigirá sua vida, e você o chamará de destino."
O dinheiro importa.
Importa para quem precisa pagar um tratamento de saúde.
Para quem deseja envelhecer com dignidade.
Para quem sonha em proporcionar tranquilidade à família.
Negar isso seria romantizar dificuldades que são profundamente concretas.
Mas talvez exista uma pergunta ainda mais importante.
Será que estamos usando o dinheiro para servir à vida?
Ou estamos organizando toda a vida para servir ao dinheiro?
Essa diferença muda tudo.
Porque prosperidade não parece morar nem no excesso nem na falta.
Ela talvez habite um lugar muito mais silencioso.
O lugar em que aprendemos o verdadeiro valor das coisas.
E conhecer o valor das coisas é diferente de conhecer apenas o seu preço.
Preço está na etiqueta.
Valor mora na experiência.
Na memória.
Na história.
Naquilo que nenhuma conta bancária consegue medir.
Talvez seja por isso que algumas pessoas acumulem bens e continuem inquietas.
Enquanto outras, mesmo sem uma vida perfeita, conseguem experimentar uma sensação rara de suficiência.
No fim das contas, talvez a prosperidade não comece na carteira.
Talvez ela comece quando paramos de correr apenas para alcançar alguma coisa e encontramos coragem para perguntar, com honestidade:
O que, afinal, estou tentando encontrar?
Dinheiro... ou aquilo que imagino que ele possa comprar?
Porque preço e valor nunca foram a mesma coisa.