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sábado, 4 de julho de 2026

🎭 A Espiral, o Palco e a Porrada: Marco Polo revisita a Ave Sangria, a censura e a liberdade 50 anos depois


🎨 A história da Ave Sangria não nasceu apenas de guitarras distorcidas e letras ousadas, mas de uma estética que Marco Polo trouxe de São Paulo, onde viveu entre 1969 e 1972. Ele testemunhou o auge do teatro experimental mundial, como a montagem de O Balcão, de Jean Genet, em que Ruth Escobar destruiu o próprio teatro para criar uma espiral metálica e uma plataforma de acrílico. Ao voltar ao Recife, em 1972, Marco trouxe consigo essa contaminação criativa, que se tornaria a espinha dorsal da teatralidade da banda.

🎸A psicodelia da Ave Sangria não era um projeto intelectual, mas uma consequência natural das vivências dos integrantes. Criados entre maracatus, baiões e xotes, e atravessados pela explosão do rock britânico e americano, eles fundiram tudo sem pedir licença. A visualidade também emergiu organicamente: roupas emprestadas das namoradas, restos de cenários catados em teatros, escadas improvisadas para Zé da Flauta tocar sax no alto. Era impacto visual e sonoro, sem manual, sem cálculo — apenas liberdade.

🌈Essa liberdade também se manifestou na forma como a banda encarou a diversidade sexual. Embora heterossexuais, conviviam com amigos homossexuais que eram humilhados e espancados nas ruas do Recife. A violência os revoltava, e a reação veio em forma de música, crítica e enfrentamento. “Seu Valdir”, uma canção bem‑humorada, virou alvo da censura por revelar a homofobia institucional da ditadura. A banda pagou caro: disco recolhido, carreira interrompida, silêncio forçado.

✍️ Marco Polo já era poeta desde a adolescência, e sua escrita moldou a linguagem da Ave Sangria. Sua bagagem literária permitiu que a banda articulasse liberdade, alegria e contestação em letras que refletiam a contracultura pernambucana. No jornalismo, sua atuação ajudou a formar gerações de profissionais, não por doutrina, mas por generosidade e incentivo à curiosidade. Criou lendas, narrativas e estratégias para atrair jovens à banda — marketing intuitivo antes da era digital.

🔥 A censura não o paralisou. Marco seguiu escrevendo, criando e vivendo como achava necessário. Para ele, tropeços não mudam a trajetória de quem sabe o que precisa fazer. Cinquenta anos depois, o pedido oficial de desculpas do Estado brasileiro foi recebido como uma “sacralização do erro”. Um alívio tardio, mas bem-vindo. A Ave Sangria segue viva, celebrando a liberdade que sempre reivindicou — e que agora, finalmente, é reconhecida.

📸 Fotos: Reprodução Instagram do Marco Polo

Durante sua passagem por São Paulo, entre os anos de 1969 e 1972

1. Como a fusão entre psicodelia, regionalismo e teatralidade moldou a identidade da Ave Sangria e a diferenciou do restante do rock brasileiro dos anos 1970?
Entre 1969 e 1972 eu morei em São Paulo. Essa época, São Paulo foi assim, o pico do que havia de mais experimental e de maior qualidade do teatro mundial. Uma das encenações que eu assisti foi "O Balcão", de Jean Genet, inclusive com a presença do próprio, e que Ruth Escobar tinha destruído o próprio teatro, criado um buraco imenso, criado uma espiral de aço na qual ficavam os espectadores e no centro havia uma plataforma de acrílico, onde os atores subiam e desciam fazendo a peça. Então quando eu vim pra Recife no final de 72, eu vim assim contaminado por esse trabalho magistral de teatro, de encenação visual experimental que houve em São Paulo. E de uma forma ou de outra eu trouxe isso pra o Ave Sangria.

Enfim, eu estava cheio de referências visuais, dinâmicas, muito legais assim. Então quando a gente criou a banda, eu procurei elementos para incrementar essa visualidade. Então, no quesito, por exemplo, de roupas, nós pedimos às nossas namoradas que nos emprestassem roupas ou criassem roupas pra gente. Nos teatros, a gente catava restos de cenário, peças cênicas de outras apresentações, e a gente reciclava isso e fazia o nosso cenário. Havia, por exemplo, coisas como pegar uma escada, né, e colocar Zé da Flauta lá em cima tocando um sax alto aleatório, junto com apresentação de músicas experimentais, instrumentais nossas.

2. De que maneira o disco Ave Sangria (1974) antecipou debates culturais sobre liberdade artística e diversidade sexual que só seriam reconhecidos décadas depois?
Enfim, não havia uma preocupação de criar uma identidade visual, mas de criar um colorido, um impacto visual junto com o impacto sonoro. Quanto à psicodelia e à regionalidade — a regionalidade vinha dentro da gente, né? A gente foi criado escutando tudo quanto é música regional: maracatu, baião, xote, xaxado, etc. E também na adolescência o rock, né? Com Beatles, Stones, Led Zeppelin, Jimi Hendrix. Então a fusão foi mais ou menos natural dessas fusões todas. Foi isso que resultou no impacto sonoro e visual do início — Tamarineira Village e depois Ave Sangria. O debate sobre questões de diversidade sexual e outros problemas desse tipo também surgiu naturalmente.

Nós éramos heterossexuais, mas tínhamos amigos homossexuais. E a gente sofria ao ver esses amigos nossos serem humilhados, espancados gratuitamente, e isso nos deixava extremamente irritados com relação a esse machismo pernambucano. Então, nossa reação em criar um debate — na verdade, a criticar essa merda toda — era natural, era uma reação natural nossa, porque havia uma repressão muito forte em relação a esses segmentos da sociedade e que a gente compartilhava com essas pessoas como iguais nossos, sem nenhum problema, e a gente via isso como uma agressão à gente também. Então a gente repelia, e a gente partia pra porrada em cima também.

3. Como a escrita poética de Marco Polo influenciou a estética da Ave Sangria e ajudou a criar uma linguagem musical singular no cenário nordestino?
Olha, eu já vinha de uma experiência como poeta, desde os 10 anos de idade, mas de forma consolidada desde os 15 anos de idade, então eu tinha uma certa bagagem literária e isso me ajudou a criar uma linguagem eficaz para traduzir o que a gente queria. Quanto a criar uma linguagem singular no cenário nordestino, isso aí surgiu mais uma vez porque a gente questionava as questões, questionava os problemas que nos cercavam, a gente tinha uma visão de liberdade, uma visão de alegria, uma visão que só era cerceada o tempo todo pela repressão, pelo conservadorismo, pela ditadura, enfim, foi uma resposta que nós questionávamos.

4. Que elementos da performance vocal de Marco Polo contribuíram para a aura mística e teatral que marcou os shows da banda?
Olha, a performance era aquela de estar solto no palco, né? Cê tá solto no palco e você ali, você é um elemento. Você não é homem, não é mulher, não é macho, não é fêmea. Você é um elemento que tá ali catalisando potencialidades. Então eu brincava, eu rebolava, eu dançava, eu criei histórias, né, lendas em relação a mim, em relação ao nosso comportamento. Isso tudo era uma estrutura de tentar criar o interesse, de pescar o interesse da juventude pra aquilo que a gente tava fazendo, que a gente achava que tava fazendo algo importante, não só como entretenimento, mas como também uma provocação.

5. Como o trabalho de Marco Polo na imprensa cultural pernambucana ajudou a formar uma crítica musical e literária própria no estado?
A minha experiência como jornalista e a minha amizade com vários jornalistas facilitou um pouco a nossa banda e também me facilitou como comunicador a divulgar a banda. Eu, como na é... na época não havia internet, não havia marketing nem nada, eu criei lendas em relação ao nosso trabalho que eu achava que iam, é, espicaçar a curiosidade dos jovens e trazer eles — era uma espécie de anzol e isca que eu jogava pra atrair eles pro nosso trabalho, e acho que funcionou muito bem.

6. De que forma sua atuação como editor de suplementos culturais influenciou gerações de jornalistas e escritores em Pernambuco?
Olhe, eu tenho gerações e gerações de jornalistas que trabalharam comigo e que são muito gratos a mim, por acharem que eu fui generoso, fui um bom, um bom, não digo mestre, mas um bom indicador de caminhos que eles poderiam seguir. Então, isso pra mim é algo que me gratifica muito. É uma questão meio secreta, porque pouca gente sabe. É, eles que chegam pra mim e dizem: 'ô Marco, devo a você muito'. E isso é muito bom. Mas, é, de forma assim, programática, eu jamais tentei influenciar, é, gerações pra seguir um determinado curso ou não. Eu sempre achei que o importante era você ter curiosidade pelo novo, ter a mente aberta e ter a capacidade de assimilar e de criar. Isso que é importante.

7. Quais temas recorrentes atravessam a poesia e a prosa de Marco Polo, e como eles se relacionam com sua trajetória musical e com a contracultura pernambucana?
Olhe, na poesia e na prosa, temas recorrentes pra mim sempre foi amor, sexo, a arte, particularmente a poesia, embora eu sempre fui também apaixonado pelas artes plásticas e pelo cinema. E tudo isso aparece no meu trabalho, tanto em poesia como tangencialmente ou de uma forma, é, especular nas letras das músicas. Então, todas essas coisas que dizem respeito à cultura, à questões sociais, à questão da liberdade, da alegria, da necessidade de liberdade e da alegria que a gente tem, tudo isso permeou toda a minha poesia e toda a minha letra de música.

8. Como a experiência da censura e do silenciamento aparece simbolicamente em sua obra literária, especialmente nos livros publicados após os anos 1990?
A censura e o silenciamento não aparecem na minha obra, porque considero isso são tropeços da continuidade de uma trajetória. Isso aí nunca me perturbou a ponto de mudar minha maneira de olhar a vida, de mudar, de olhar a arte, de olhar minha relação com a sociedade, com as pessoas e comigo mesmo. Então, eu sempre fiz o que eu tinha que fazer, o que era necessário, que vinha de dentro de mim como uma coisa necessária pra ser feita. Eu acho que a gente faz o que é preciso fazer e não para de fazer porque tem um tropeço na frente. Isso é besteira. Vamos em frente sempre.

9. Que mecanismos da censura da ditadura explicam por que “Seu Valdir” foi considerada uma ameaça moral e política, revelando a homofobia institucional do regime?
Essa questão com o seu Valdir, que, na verdade, é uma música bem-humorada, é uma brincadeira, na verdade, não é uma coisa para ser tomada tão a sério como eles tomaram. Isso é uma questão deles, cara. Eles têm essa cabeça doentia. Eles veem doença em todo canto, eles veem maldade em todo canto. Então, isso é um problema muito mais deles do que meu. Sempre foi. Então, nunca considerei isso uma questão pessoal importante para mim. Claro que eu fiquei chateado, claro que foi muito ruim, claro que foi péssimo para a banda toda essa experiência de quebrar a carreira no início da decolagem. Mas, porra, fazer o quê? A gente está diante de uma ditadura, cara. Diante da ditadura é isso. Você dá de cara com uma parede. Uma parede de imbecilidade e de prepotência. Fazer o quê? Não dá para gritar, não dá para esbravejar, não dá para dinamitar. Mas, cedo ou mais tarde, a gente dá a volta por cima e dá a nossa resposta. E é isso que a gente vem fazendo.

10. Como o pedido oficial de desculpas do Estado brasileiro reconfigura a memória da Ave Sangria e reposiciona a banda no cânone da música brasileira contemporânea?
É, o pedido de desculpa foi uma espécie de sacralização, né, do erro que eles cometeram, que o Estado cometeu contra a gente. Eu senti um certo alívio, porque, porra, até que enfim, né, vocês reconhecem que fizeram uma grande merda. E finalmente, hoje, agora, estamos felizes por… Nunca paramos de trabalhar, nunca paramos de fazer o nosso trabalho, nunca paramos de sentir nossa alegria pela nossa liberdade, pela nossa potencialidade de criar, que é o mais importante do que tudo. Então, muito bem, que seja bem-vinda essa anistia. É muito bem-vinda e vamos celebrar. Daqui a pouco eu vou tomar uma taça de champanhe. Espero que cê teja uma taça de champanhe aí pra brindar comigo. Um beijo, tchau!


A seguir, a polêmica música Seu Valdir, criada para ser uma greia, uma zuera, acabou passando por uma censura de - pasmem - mais de 50 anos.