domingo, 7 de junho de 2026

#SendoProsperidade com Mariângela Borba

Tudo evoluiu. Menos a inclusão

Por Mariângela Borba.

 

Recentemente participei de um dos maiores eventos sobre futuro urbano, inovação, gestão pública e sustentabilidade do país. Durante dias, ouvi especialistas discutindo Inteligência Artificial, transformação digital, cidades inteligentes e novas tecnologias.

Tudo muito necessário.

Mas voltei para casa com uma inquietação.

Quem estamos deixando para trás nessa corrida?

Uma das palestras trouxe um estudo realizado pelo MIT que analisou a forma como estudantes produziam textos utilizando Inteligência Artificial, mecanismos de busca ou apenas seus próprios conhecimentos. Os resultados apontaram algo importante: quando o indivíduo participa menos da construção do raciocínio, tende a reter menos conhecimento.

Não porque a tecnologia seja ruim.

Mas porque aprender continua exigindo participação.

Enquanto refletia sobre isso, lembrei de uma frase que ouvi durante toda a minha vida:

“Inteligência é resolver novas situações.”

 

Era assim que a minha dona mamãe definia inteligência.

E talvez seja exatamente isso que esteja faltando em muitas discussões sobre inovação.

Não basta criar novas ferramentas.

É preciso criar novas soluções para novas realidades.

Meu pai trabalhou durante décadas no sistema bancário e participou da implantação de tecnologias que transformaram a forma como lidamos com o dinheiro, daquela época até hoje. Mas, depois de aposentado, fez uma escolha legítima: não quis continuar acompanhando cada novidade tecnológica. E está tudo certo. É um direito que o assiste.

Recentemente, durante um tratamento oncológico dele, surgiu uma demanda judicial que exigia o envio de documentação por e-mail.

Ele não utiliza e-mail.

Não por incapacidade.

Por opção.

Ao entrar em contato com o escritório responsável pelo processo, expliquei a situação. Redigi a mensagem, encaminhei os documentos necessários e a advogada anexou tudo aos autos.

O processo seguiu normalmente.

Ninguém foi prejudicado.

Ninguém foi excluído.

E sabe por quê?

Porque alguém abriu os horizontes e resolveu a situação.

Inclusão não é eliminar a tecnologia.

Inclusão é construir pontes.

Hoje, envelhecer também significa aprender a sobreviver digitalmente.

Aplicativos.

QR Codes.

Biometria.

Reconhecimento facial.

Senhas.

Confirmações por SMS.

Prova de vida digital.

Ferramentas que facilitam a vida de muitos, mas que também podem se transformar em barreiras para quem não cresceu nesse ambiente.

Não estou defendendo o abandono da tecnologia. Pelo contrário.

Ela reduz fraudes, amplia acessos e traz eficiência.

Mas eficiência sem humanização pode produzir um efeito colateral perigoso: a exclusão.

Outro dia, ao entrar no prédio onde moro, meu pai ouviu da portaria eletrônica:

“Acesso facial negado.”

Uma frase simples.

Mas carregada de simbolismo.

A máquina não reconheceu alguém que ajudou a construir parte do mundo que hoje ela representa.

E essa exclusão não atinge apenas idosos.

Recentemente conheci um profissional que trabalhou durante mais de duas décadas em uma grande empresa internacional. Descobriu, já adulto, possuir um grau de autismo que jamais o impediu de desempenhar suas funções com excelência.

Mesmo assim, acabou afastado.

A questão nunca foi capacidade.

A questão foi adaptação.

O mundo moderno fala muito sobre diversidade.

Mas ainda pratica pouco a inclusão.

Talvez por isso a atualização da NR-1 seja tão relevante.

Ao reconhecer a importância dos riscos psicossociais, a norma amplia a compreensão de que saúde não é apenas ausência de doença.

Saúde também envolve pertencimento.

Acolhimento.

Escuta.

Condições para que as pessoas possam participar plenamente da vida social e profissional.

A ciência avança.

A tecnologia avança.

A Inteligência Artificial avança.

Mas nenhuma inovação será realmente transformadora se deixar pessoas para trás.

Prosperidade não é apenas crescer.

Prosperidade é garantir que todos possam continuar caminhando juntos.

Porque inovação sem inclusão não é evolução.

É abandono disfarçado de modernidade.

*Mariângela Borba é jornalista, produtora cultural e estrategista digital. Especialista em Cultura Pernambucana, atua na interseção entre comunicação, cultura e política. Com passagem pelo Ministério da Cultura e gestões públicas, integra a AIP e a UBE. Pesquisa a palavra como território de poder e estuda Psicanálise.