Tudo evoluiu. Menos a inclusão
Por Mariângela Borba.
Recentemente participei de um dos maiores eventos sobre
futuro urbano, inovação, gestão pública e sustentabilidade do país. Durante
dias, ouvi especialistas discutindo Inteligência Artificial, transformação
digital, cidades inteligentes e novas tecnologias.
Tudo muito necessário.
Mas voltei para casa com uma inquietação.
Quem estamos deixando para trás nessa corrida?
Uma das palestras trouxe um estudo realizado pelo MIT que
analisou a forma como estudantes produziam textos utilizando Inteligência
Artificial, mecanismos de busca ou apenas seus próprios conhecimentos. Os
resultados apontaram algo importante: quando o indivíduo participa menos da
construção do raciocínio, tende a reter menos conhecimento.
Não porque a tecnologia seja ruim.
Mas porque aprender continua exigindo participação.
Enquanto refletia sobre isso, lembrei de uma frase que ouvi
durante toda a minha vida:
“Inteligência é resolver novas situações.”
Era assim que a minha dona mamãe definia inteligência.
E talvez seja exatamente isso que esteja faltando em muitas
discussões sobre inovação.
Não basta criar novas ferramentas.
É preciso criar novas soluções para novas realidades.
Meu pai trabalhou durante décadas no sistema bancário e
participou da implantação de tecnologias que transformaram a forma como lidamos
com o dinheiro, daquela época até hoje. Mas, depois de aposentado, fez uma
escolha legítima: não quis continuar acompanhando cada novidade tecnológica. E
está tudo certo. É um direito que o assiste.
Recentemente, durante um tratamento oncológico dele, surgiu
uma demanda judicial que exigia o envio de documentação por e-mail.
Ele não utiliza e-mail.
Não por incapacidade.
Por opção.
Ao entrar em contato com o escritório responsável pelo
processo, expliquei a situação. Redigi a mensagem, encaminhei os documentos
necessários e a advogada anexou tudo aos autos.
O processo seguiu normalmente.
Ninguém foi prejudicado.
Ninguém foi excluído.
E sabe por quê?
Porque alguém abriu os horizontes e resolveu a situação.
Inclusão não é eliminar a tecnologia.
Inclusão é construir pontes.
Hoje, envelhecer também significa aprender a sobreviver
digitalmente.
Aplicativos.
QR Codes.
Biometria.
Reconhecimento facial.
Senhas.
Confirmações por SMS.
Prova de vida digital.
Ferramentas que facilitam a vida de muitos, mas que também
podem se transformar em barreiras para quem não cresceu nesse ambiente.
Não estou defendendo o abandono da tecnologia. Pelo
contrário.
Ela reduz fraudes, amplia acessos e traz eficiência.
Mas eficiência sem humanização pode produzir um efeito
colateral perigoso: a exclusão.
Outro dia, ao entrar no prédio onde moro, meu pai ouviu da
portaria eletrônica:
“Acesso facial negado.”
Uma frase simples.
Mas carregada de simbolismo.
A máquina não reconheceu alguém que ajudou a construir parte
do mundo que hoje ela representa.
E essa exclusão não atinge apenas idosos.
Recentemente conheci um profissional que trabalhou durante
mais de duas décadas em uma grande empresa internacional. Descobriu, já adulto,
possuir um grau de autismo que jamais o impediu de desempenhar suas funções com
excelência.
Mesmo assim, acabou afastado.
A questão nunca foi capacidade.
A questão foi adaptação.
O mundo moderno fala muito sobre diversidade.
Mas ainda pratica pouco a inclusão.
Talvez por isso a atualização da NR-1 seja tão relevante.
Ao reconhecer a importância dos riscos psicossociais, a
norma amplia a compreensão de que saúde não é apenas ausência de doença.
Saúde também envolve pertencimento.
Acolhimento.
Escuta.
Condições para que as pessoas possam participar plenamente
da vida social e profissional.
A ciência avança.
A tecnologia avança.
A Inteligência Artificial avança.
Mas nenhuma inovação será realmente transformadora se deixar
pessoas para trás.
Prosperidade não é apenas crescer.
Prosperidade é garantir que todos possam continuar
caminhando juntos.
Porque inovação sem inclusão não é evolução.
É abandono disfarçado de modernidade.
*Mariângela Borba é jornalista, produtora cultural e
estrategista digital. Especialista em Cultura Pernambucana, atua na interseção
entre comunicação, cultura e política. Com passagem pelo Ministério da Cultura
e gestões públicas, integra a AIP e a UBE. Pesquisa a palavra como território
de poder e estuda Psicanálise.