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quarta-feira, 24 de junho de 2026

📚 O cotidiano em movimento: a escrita que encontra o leitor antes que ele perceba


✨ A trajetória de Renan Mariano, o escritor por trás do perfil @renan.escreve, é marcada por uma relação íntima com os textos curtos, aqueles que cabem na palma da mão, no intervalo do café, no respiro entre uma tarefa e outra. Desde os tempos dos blogs, quando ainda era adolescente, ele descobriu que poucas linhas podem carregar um impacto profundo — e nunca mais abandonou essa forma de expressão. Hoje, suas crônicas, contos e pequenas situações alcançam milhares de leitores no Instagram, onde ele publica semanalmente e transforma o ordinário em literatura. Literatura cotidiana é, para ele, uma forma de tocar quem não estava esperando ser tocado.

📝 A escrita de Renan nasce de dois impulsos complementares: a observação e a lapidação. Às vezes, uma cena se apresenta pronta, como se já viesse com começo, meio e fim. Outras vezes, surge apenas um esqueleto, uma fagulha que exige trabalho, método e paciência. Ele descreve esse processo como esculpir: a ideia se revela enquanto é moldada. Entre humor e melancolia, Renan não enxerga oposição — enxerga humanidade. Seus personagens transitam entre o riso e a dor, e o leitor decide onde pousar. Processo criativo é, para ele, tanto instinto quanto técnica.

💡 Mesmo sem rotina rígida, Renan mantém um compromisso consigo: escrever toda semana. Engenheiro de profissão, ele escreve à noite, no tempo que sobra entre o trabalho e a vida afetiva. Anota tudo no celular — ideias desconexas, frases soltas, lampejos. Algumas viram textos no mesmo dia; outras dormem anos. O que o move não é a cobrança externa, mas a interna: a vontade de não desperdiçar o que o alimenta. E quando um texto repercute, como aconteceu com “Farelo de bolo”, ele entende que a força está menos no formato e mais na verdade que carrega. Criação literária é, acima de tudo, encontro.

📖 Suas referências vão de Machado de Assis a Conceição Evaristo, passando por Veríssimo, Nelson Rodrigues e Lygia Fagundes Telles. Mas Renan também encontra literatura nas conversas de café, nos diálogos casuais, nas histórias que as pessoas contam sem perceber que estão oferecendo matéria-prima. Para ele, uma boa crônica é como uma carroça em movimento: o autor puxa o leitor pela gola, o coloca dentro da narrativa e salta — deixando-o seguir sozinho, ainda em movimento. Boa crônica é aquela que continua mesmo depois do ponto final.

🌅 O futuro? Um romance — ainda que a coragem e o tempo estejam em negociação. Enquanto isso, Renan revisa sua primeira coletânea de crônicas, que em breve chegará ao público. Ele sabe que não precisa se prender a um formato para ser lido; precisa apenas de um texto forte, honesto e capaz de fazer o leitor deslizar a próxima tela. E isso, definitivamente, ele já domina. Futuro literário

📸 Fotos: Arquivo Pessoal

Entrevista – Renan Mariano (@renan.escreve)

1. O que te fez começar a escrever textos curtos — e por que esse formato continua te atraindo.
Quando eu tinha uns 18 anos, os blogs eram populares como diários virtuais e espaço para reflexões. Naquela época, eu acompanhava algumas páginas que tinham textos um pouco mais trabalhados. Para mim eram mais que diários virtuais. Eu ficava admirado com o fato de alguns textos, mesmo curtos, me impactarem tanto. Resolvi então criar minha própria página e comecei a dar vazão ao que eu pensava. Quis tentar escrever textos impactantes também. Eu praticamente não tinha leitores, mas aquilo me moldou. Mantive a página por muitos anos.

Hoje em dia, os textos curtos (basicamente crônicas e contos) ainda me fazem transbordar. Diferente de um livro, que espera pelo leitor, um texto curto publicado na internet vai até o leitor. No ônibus, no metrô, no aeroporto, no intervalo do almoço, no cafezinho, o texto curto alcança as pessoas e é capaz de mudar o dia, a semana ou até mesmo a vida de alguém que não esperava por isso. Acho espetacular.

2. Como nasce uma crônica no seu dia a dia — você observa primeiro ou escreve para entender depois.
No meu caso, há duas formas: uma por simples observação prévia. Algo interessante acontece ao meu redor (ou comigo) e logo penso: isso é uma crônica completa. É um processo mais fácil, pois o texto já vem todo na cabeça, rápido.

A outra forma é mais trabalhosa. Nasce uma ideia bruta como esqueleto, e nela vou incluindo elementos inicialmente desconexos entre si. É mais difícil de escrever porque a ideia vai se estabelecendo ao mesmo tempo em que produzo. Não é que eu entenda o texto somente depois de pronto. O entendimento se dá no processo de lapidação. Parece que estou esculpindo algo. É extremamente satisfatório quando termina.

3. Qual é a linha tênue entre humor e melancolia nos seus textos — e como você decide em qual lado cair.
Não vejo humor e melancolia como opostos. Talvez seja por isso que eles pareçam próximos em alguns escritos. Muitas piadas, dessas contadas oralmente, se baseiam na tragédia. Existe o tal do humor autodepreciativo também. E eu gosto de personagens que possuem uma visão amarga, ácida e bem-humorada ao mesmo tempo, embora eu não seja assim. Tento não forçar demais um lado; não sei se consigo. Às vezes é o leitor que decide de que lado caiu, humor ou drama.

No mais, convenhamos, uma pessoa apenas bem-humorada, que é alto astral o tempo todo, não é a melhor pessoa para se ter por perto. Não é realista. Claro que o contrário é péssimo. Mas acredito que conexões mais profundas sejam feitas de um pouco de melancolia compartilhada, pois é quando as pessoas mostram suas vulnerabilidades. Ter confiança em alguém a ponto de mostrar sua vulnerabilidade é lindo. Essa é a verdadeira intimidade.

4. Existe alguma rotina criativa que você segue — ou a escrita chega quando quer.
Não consigo estabelecer uma rotina muito metódica de escrita. O trabalho que paga minhas contas é o de engenheiro. Sendo assim, é no meu tempo livre que eu consigo pôr no papel as ideias. Só que eu também namoro; não fico muito em frente ao notebook nos fins de semana. Então me sobram os dias úteis à noite. A única coisa que tenho como protocolo é anotar todas as ideias no celular, por mais loucas e desconectadas que elas pareçam. Anoto de qualquer jeito. Às vezes aquilo cresce e vira um texto, que em algum momento, no período noturno, eu vou escrever. Tenho ideias muito antigas anotadas que nunca viraram nada. E outras que se tornam texto no mesmo dia em que surgem.

5. Qual texto seu mais te surpreendeu pela repercussão — e por quê.
Foi o “Farelo de bolo”. Porque é um texto em prosa corrida, diferente dos contos-diálogos que eu tanto compartilho. Descobri que os contos-diálogos prendem mais o leitor no Instagram, plataforma que uso hoje como principal canal de divulgação. O ser humano é curioso por natureza; ele adora ouvir (no caso, ler) a conversa alheia.

Mas o “Farelo de bolo” é prosa “clássica”, que era o que eu sempre escrevia desde os tempos do blog. Foi incrível ver que repercutiu tão bem, porque minha origem está nesse estilo mais intimista, em primeira pessoa. Recebi desabafos e pedidos de pessoas para que eu escrevesse suas histórias. Os comentários que esse texto recebeu, nossa, é literatura à parte.

Algumas pessoas acharam até que a história fosse minha. Isso me fez entender que eu não preciso ficar preso a um formato para ser lido. Na verdade, o que eu preciso é de um texto forte e cativante, com o qual as pessoas se identifiquem, além de um bom gatilho na tela inicial, considerando o Instagram. A primeira frase de “Farelo de bolo” é “Todos os dias, mainha fazia bolo e levava surra do meu pai”. Uma ternura e uma violência juntas; um problema exposto logo de cara. “Nossa, o que será que vai acontecer aqui?”, o leitor deve ter pensado, e continuou deslizando as telas. Houve comoção. Tenho outros textos felizes em repercussão entre seguidores e não seguidores. Esse foi feliz acima do esperado. Não dá para produzir sempre um desses; pelo menos não na frequência com que me proponho.

6. Como você lida com a expectativa dos leitores — especialmente quando esperam que você publique “toda semana”.
Acho que não há expectativa dos leitores quanto à cadência. Ainda não fui cobrado. Nunca nem mesmo externaram algo do tipo “Qual será o texto dessa semana?”. Não é para tanto. E o fato de eu não estabelecer um dia fixo para publicar me ajuda. Esse “toda semana” que escrevi na bio do Instagram é mais um compromisso comigo mesmo, para que eu esteja sempre escrevendo. Já passei mais de um ano sem escrever absolutamente nada. Isso é péssimo, perdi tempo, deixei de fazer algo que tanto me alimenta. Pior, deixei de me aprimorar, pois é fazendo que a gente melhora. Tenho cumprido a proposta semanal, mas se eu passar de sete dias creio que ninguém mandará mensagem cobrando.

No geral, eu gostaria que todos os textos fossem bem distribuídos, comentados, compartilhados etc. Mas nem sempre acontece, faz parte. O maior problema é lidar com minhas próprias expectativas acerca de cada texto. Estou aprendendo. Tem texto que eu já sei que não vai engajar tanto, e mesmo assim eu publico porque eu acho que ele precisa existir. Eu quero que ele exista. Não posso ficar preso aos números.

7. Quais autores ou referências moldaram seu olhar para o cotidiano — literários ou não.
Consigo pensar agora em Machado de Assis, Luís Fernando Veríssimo e Nelson Rodrigues. Mais recentemente, Conceição Evaristo. Ah, li um livro de contos da Lygia Fagundes Telles (“A noite escura e mais eu”) que me arrebatou e me inspirou. Eu queria poder citar também Kafka, Dostoiévski etc., mas ainda não li esses caras. Quanto às referências não literárias, o professor Yuval Noah Harari, autor de “Sapiens”, me acompanha bastante. No mais, todas as conversas informais e prolongadas com qualquer pessoa ajudam a moldar meu olhar. Bate-papo de café é literatura pura.

8. O que você considera uma boa crônica — e como sabe que um texto seu está “pronto”?
Imagine que o autor é um carroceiro conduzindo sua carroça (o texto). Ele vem trotando veloz e, sem parar, puxa o leitor pela gola — com uma força sobrenatural — e o leva consigo. Depois de percorrer alguns metros, o carroceiro pula e deixa o leitor se virar sozinho sobre a carroça, com o cavalo em movimento. Uma boa crônica é isso: pega o leitor distraído, o conduz, termina, mas o leitor continua em movimento. Um texto está pronto no instante em que, se eu pular da carroça, o leitor permanecerá nela, tão distraído quanto chegou. Uma boa crônica ou conto jamais é uma carroça que estaciona para o leitor subir e descer com segurança. Quem faz isso é livro didático e manual de instruções.

9. Como é transformar pequenas situações em literatura — existe um método ou é puro instinto?
A ideia em si é puramente instintiva. Eu não forço a barra para uma situação virar texto se ela não me ocorrer já com potencial de texto. Mas a escrita tem muito método. Fiz alguns cursos de escrita criativa, tento aplicar as técnicas. Mostrar em vez de contar, construir cenário, dar textura, atribuir aspectos emocionais ao personagem. Em termos de português, é preferir a voz ativa, evitar adjetivações e conectores em excesso, dar respiro por meio de quebra de frases, pontuações, e por aí vai.

10. O que você ainda quer escrever e ainda não teve coragem? — seja um tema, um livro ou um experimento.
Um romance. Mas falta de coragem não é exatamente o sentimento. Acho que é uma mistura de preguiça com certa desconfiança (“será que é hora de investir tanto tempo nisso?”). Creio que seja uma resistência comum de quem nunca escreveu um romance. Nada que realmente me impeça. Tenho vontade, sim, e acho que isso vai se consolidar. Por enquanto não estou me cobrando. Já tenho o manuscrito da minha coletânea de crônicas, em fase de revisão. Esse será o meu primeiro livro.