ÚLTIMAS NOTÍCIAS
Carregando manchetes...

quarta-feira, 24 de junho de 2026

📀 A metamorfose sonora de Tip Joe: entre a psicodelia, a noite e o futuro da música eletrônica

 


🎶 A história de Tip Joe começa muito antes dos sintetizadores, nas reuniões de karaokê em família e na imaginação fértil de um garoto que desenhava, criava histórias e inventava mundos. “Minha família sempre gostou muito de música”, lembra Erick, seu nome de registro. O ponto de virada veio aos 15 anos, quando ouviu Os Afro Sambas pela primeira vez e sentiu “uma vontade enorme de criar e me expressar através da música”. A partir dali, mergulhou em pesquisas, descobertas e experimentações que moldariam sua sensibilidade artística.

🌙 O nome Tip Joe nasceu como uma espécie de alter ego. “Meu nome de registro é Erick, mas eu queria um nome artístico que fosse diferente”, explica. O trocadilho com tiptoe funciona como uma sátira de si mesmo: “Sempre fui uma pessoa muito cautelosa, tímida… então o Tip Joe funciona como se ele estivesse rindo do Erick”. Essa persona mais ousada permitiu que ele explorasse universos sonoros diversos, desde a guitarra psicodélica dos anos 60 até as batidas eletrônicas que hoje definem sua identidade.

🌌 A evolução de sua sonoridade acompanha sua própria trajetória emocional. “No início eu não entendia absolutamente nada”, diz sobre suas primeiras experiências em DAWs. Mas a curiosidade venceu a técnica, e a técnica veio com o tempo. Hoje, Tip Joe define sua identidade como “noturna, nostálgica e profundamente emocional”, guiada por sintetizadores, distorções e narrativas musicais que conduzem o ouvinte por clímax, calmarias e tensões. Suas influências vão de Jefferson Airplane e Velvet Underground a Tame Impala, Boogarins e Polo & Pan.

🌈 Um dos momentos mais marcantes de sua trajetória recente é o medley psicodélico dedicado à música brasileira dos anos 60 e 70. “A música psicodélica brasileira teve um papel muito importante na minha adolescência”, conta. Ele cita descobertas como Lindo Sonho Delirante, Pedro Santos, Serguei, Gal Costa, Os Mutantes, Wanderléa, Antônio Carlos & Jocafi, Cátia de França, Marisa Rossi e Fábio Stella. “Eu queria montar uma coletânea que eu mesmo adoraria encontrar”, afirma. O resultado é uma curadoria afetiva e histórica, que resgata raridades e celebra a riqueza da psicodelia nacional.

🌞 O futuro de Tip Joe aponta para novas fusões e experimentações. “Tenho vontade de criar um set exatamente com essa proposta: raridades brasileiras para ouvir numa tarde de domingo”, revela. Ele também demonstra interesse por tecnobrega, samba-rock e outras vertentes brasileiras. Em paralelo, prepara faixas com influências de electro rock, electroclash, disco dance e garage. “Pretendo lançar em breve uma faixa mais voltada para esse universo”, adianta. Para ele, cada criação é uma estreia emocional: “Acho que toda vez que crio algo novo sinto que aquela é a melhor apresentação da minha vida”.

📸 Fotos: Reprodução Instagram e Arquivo Pessoal

Serviço:
Tip Joe — DJ, produtor musical e criador de conteúdo
Redes: YouTube, SoundCloud, TikTok e Instagram
Atividade: desde 2015 (instrumental) e 2020–2021 (produção e sets)
Cidade-base: Campinas -SP



ENTREVISTA - DJ TIP JOE

1. Como começou a sua trajetória na música eletrônica e o que te motivou a se tornar DJ e produtor?
Minha família sempre gostou muito de música. Um dos programas que a gente sempre faz é se reunir para cantar no karaokê (risos). Também sempre fui uma pessoa muito criativa e ligada à arte. Desde pequeno gostava de desenhar, criar histórias e imaginar cenários.

Mas meu interesse pela música despertou de verdade quando um amigo me apresentou Os Afro Sambas. Eu tinha uns 15 anos e lembro de ficar fascinado, porque era algo completamente diferente de tudo o que eu costumava ouvir. Foi aí que comecei a pesquisar artistas e músicas de diferentes gêneros e países.

Quanto mais eu descobria ritmos que nem imaginava que existiam, mais surgia em mim uma vontade enorme de criar e me expressar através da música. Foi quando comecei a mexer nos softwares de produção musical. Aprendi praticamente tudo sozinho, assistindo vídeos e praticando em casa.
No começo foi difícil, porque eu não conseguia transformar em som exatamente o que imaginava na minha cabeça. Mas, com o tempo, fui estudando, fazendo alguns cursos e entendendo melhor como poderia me expressar através de batidas e sintetizadores.

Naturalmente, comecei a me envolver também com a mixagem. Sempre fui aquela pessoa que gosta de apresentar músicas e artistas novos para quem está ao redor, e isso acabou me levando a montar repertórios e criar sets que misturam gêneros, sentimentos e referências. Gosto de construir uma narrativa sonora tanto nos meus sets quanto nas minhas produções, sempre buscando algo diferente e que mereça ser descoberto.

2. Qual é o seu nome de registro e como surgiu o nome artístico Tip Joe?
Meu nome de registro é Erick, mas eu queria um nome artístico que fosse diferente e representasse uma persona distinta de quem eu sou no dia a dia. Tip Joe surgiu como um trocadilho com tiptoe, expressão em inglês que significa andar na ponta dos pés, agir com cautela ou evitar conflitos. Como Erick, sempre fui uma pessoa muito cautelosa, tímida e até medrosa em alguns aspectos. Então, de certa forma, o Tip Joe funciona como uma sátira de mim mesmo, como se ele estivesse rindo do Erick e assumindo tudo aquilo que ele tem medo de expressar.

3. Há quanto tempo você está na ativa e como percebe a evolução da sua sonoridade desde o início?
Comecei, por volta de 2015, tocando guitarra e violão. Como eu era muito ligado à música psicodélica dos anos 60, meu objetivo inicial era aprender a tocar minhas músicas favoritas. Eu e alguns amigos chegávamos a tocar em pequenos bares da nossa cidade, que é bem pequena, mas na maioria das vezes nos reuníamos apenas pelo prazer de tocar e cantar juntos.

Com o tempo, comecei a me interessar por produção musical e a fazer minhas primeiras experiências nas DAWs. No início eu não entendia absolutamente nada. Ficava apenas apertando teclas e criando sons que achava interessantes, sem saber gravar, mixar ou usar efeitos.

Lembro que eu e um amigo próximo passávamos horas criando sons aleatórios, gravando tudo no celular e depois juntando no Audacity para subir no SoundCloud. Naquela época eu não tinha uma identidade sonora definida; era apenas um conjunto de sons que eu achava legal (risos).
Com o passar dos anos, fui estudando, fazendo cursos, experimentando coisas novas e entendendo melhor as ferramentas de produção. Hoje consigo traduzir muito mais claramente aquilo que quero transmitir, mesmo que às vezes o processo ainda leve tempo.

Durante um período fiquei bastante preocupado em encontrar uma sonoridade específica ou me manter fiel a um único gênero para atingir um determinado público. Mas fui entendendo que a minha identidade está justamente em transformar sentimentos em música, independentemente do gênero: house, dance, disco, rock ou pop. Acho que foi exatamente isso que me fez me apaixonar pela música: ela pode ser o que a gente quiser.

4. Quais artistas, estilos e referências moldaram sua formação musical, tanto dentro quanto fora da música eletrônica?
Os Afro Sambas foram responsáveis por abrir meu terceiro olho para a música. Foi quando percebi que existia muito mais além do que tocava nas rádios.

Depois disso, fui profundamente influenciado pela psicodelia dos anos 60 e 70, especialmente artistas como Jefferson Airplane, The Velvet Underground, The Electric Prunes e Os Mutantes. Mais tarde, também passei a acompanhar a nova geração da música psicodélica, como Tame Impala, Temples e Boogarins.

Dentro da música eletrônica, uma das minhas maiores referências é a dupla Polo & Pan, inclusive pela maneira como incorporam elementos e samples da música brasileira em suas produções e sets.

Acho que cada fase da minha vida teve artistas, álbuns ou músicas que acabaram se tornando parte das experiências que vivi e influenciando minha forma de criar. Algo que também me inspira muito é toda a estética nostálgica e noturna. Gosto de tudo que remete à noite, estradas, luzes, algo lúdico e cinematográfico.

Estou sempre sendo influenciado por alguma coisa. Ultimamente, por exemplo, tenho ouvido bastante Pixel Grip e Sextile, e já consigo perceber essas referências aparecendo nas minhas produções mais recentes.

5. Como você definiria sua identidade sonora atual e o que considera essencial no seu processo criativo?
Eu definiria minha identidade sonora como noturna, nostálgica e profundamente emocional. Quase tudo o que crio nasce da tentativa de traduzir algum sentimento.

Gosto muito de trabalhar com sintetizadores, distorções, delays, reverbs e flangers, elementos que inevitavelmente me conectam às minhas influências psicodélicas. Também gosto de batidas marcantes e de criar progressões que conduzam o ouvinte até um momento de clímax.

Nos meus sets, procuro sempre construir uma narrativa, misturando diferentes gêneros e criando momentos de euforia, calmaria, tensão e contemplação. Mais do que tocar músicas, gosto de contar histórias através delas.

6. O que te levou a criar o medley psicodélico com artistas brasileiros dos anos 60 e 70 e como foi o processo de escolha das faixas?
A música psicodélica brasileira teve um papel muito importante na minha adolescência. Eu e alguns amigos passávamos horas trocando descobertas de bandas, raridades, filmes e discos esquecidos.

 Algumas coletâneas escondidas me apresentaram diferentes artistas e músicas, como Lindo Sonho Delirante do Fábio. Lembro também de ter descoberto o álbum Krishnanda, do Pedro Santos (Pedro Sorongo), através de uma revista na escola, e aquilo me marcou profundamente. Descobrir raridades brasileiras era quase uma aventura.

Mesmo trabalhando hoje principalmente com música eletrônica, sempre volto aos clássicos que ajudaram a construir a minha identidade artística. Foi justamente isso que me levou a criar esse medley. Eu queria montar uma coletânea que eu mesmo adoraria encontrar caso estivesse pesquisando sobre psicodelia brasileira, reunindo principalmente alguns dos meus clássicos preferidos.

7. Você pretende explorar outros gêneros brasileiros em futuros sets ou medleys?
Com certeza. O samba-rock, por exemplo, esteve muito presente nessa fase de descobertas da música brasileira e continua sendo uma das minhas trilhas sonoras favoritas para os domingos (risos).
Inclusive, tenho vontade de criar um set exatamente com essa proposta: raridades brasileiras para ouvir numa tarde de domingo.

Também gosto bastante do tecnobrega, que considero algo extremamente experimental e criativo. Acho que existem muitos artistas brasileiros produzindo coisas incríveis atualmente, e quero explorar cada vez mais essa riqueza nos meus projetos.

8. Como enxerga o papel da música brasileira dentro da cena eletrônica atual e o potencial de fusões entre esses universos?
A música brasileira sempre esteve muito presente na cena eletrônica, seja através de samples, vocais, ritmos ou até mesmo na estética de muitos artistas. Acredito que ela seja um acervo praticamente infinito de referências e possibilidades criativas.

O grande potencial dessa fusão está justamente na capacidade de criar algo novo sem perder a conexão com as nossas raízes. O Brasil possui uma diversidade musical gigantesca, e quando esses elementos dialogam com a música eletrônica surgem sonoridades muito únicas, capazes de atravessar fronteiras e apresentar a nossa cultura para diferentes públicos ao redor do mundo.

9. Quais são seus próximos passos como artista?
Recentemente eu estava produzindo e me aventurando em batidas drum n bass. Agora estou muito envolvido com sonoridades como electro rock, electroclash, disco dance e garage. Pretendo lançar em breve uma faixa mais voltada para esse universo, com batidas e graves mais agressivos, além de vocais distorcidos.

Também estou experimentando gravar diferentes tipos de voz para trazer ainda mais personalidade e sentimento às minhas produções.

Além disso, quero criar um set reunindo raridades psicodélicas de diferentes países, algo pensado para ser ouvido no fim de uma tarde de domingo, acompanhado de uma boa taça de vinho.

10. Qual foi o momento que você considera a melhor apresentação da sua vida?
Acho que toda vez que crio algo novo ou me apresento para alguém, sinto que aquela é a melhor apresentação da minha vida (risos). Gosto de viver cada experiência como algo único. Talvez seja justamente essa sensação de descoberta constante que me faz continuar criando.



Veja a seguir o vídeo completo de Tip Joe remixando a psicodelia brasileira: