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domingo, 18 de outubro de 2026

#SendoProsperidade com Mariângela Borba

A dignidade não tem tamanho: o corpo não é piada

Liberdade de expressão exige responsabilidade. Respeito não é favor.

Por Mariângela Borba

Em uma sociedade na qual a imagem vale curtidas e o escárnio rende visualizações, o corpo alheio tornou-se, muitas vezes, matéria-prima para o entretenimento. O que alguns chamam de brincadeira pode alimentar a discriminação e constranger pessoas pelo simples fato de existirem em público.

A gordofobia não se limita às ofensas explícitas. Manifesta-se no bullying escolar, nos ataques no transporte público e nas situações em que alguém passa a evitar determinados espaços por medo de ser ridicularizado. Quando uma criança deixa de querer ir à escola por causa da humilhação, não estamos diante de uma piada inocente, mas de uma realidade que exige atenção, acolhimento e responsabilidade.

A pergunta que precisamos fazer é simples: e se fosse com outra pessoa? Alguém com menos recursos emocionais para enfrentar a exposição, uma criança em formação ou uma pessoa marcada por sucessivas experiências de discriminação?

A defesa da cidadania, presente na trajetória do pernambucano Marcos Freire, ajuda a lembrar que direitos não podem depender da força individual de quem precisa defendê-los. Norberto Bobbio contribui para essa reflexão ao tratar dos direitos e de suas garantias; Jürgen Habermas nos leva a pensar na responsabilidade que acompanha a comunicação. A liberdade de expressão é essencial à democracia, mas não elimina o dever de respeitar os direitos alheios.

Carl Gustav Jung, ao abordar a sombra, oferece outra perspectiva: o que revelamos de nós mesmos quando transformamos as diferenças do outro em motivo de escárnio? A Doutrina Social da Igreja, por sua vez, reafirma a dignidade de cada pessoa, independentemente da aparência ou da condição social. O livre-arbítrio nos permite escolher, mas nossas escolhas também implicam responsabilidade moral.

No campo jurídico, a Constituição Federal protege a liberdade de expressão, a honra, a intimidade e a imagem. O enquadramento de uma conduta discriminatória depende das circunstâncias concretas, mas nenhuma liberdade deve ser confundida com autorização irrestrita para violar direitos.

A pressão estética também merece reflexão. Em busca de resultados rápidos, cresce o interesse por medicamentos para emagrecimento, que possuem indicações clínicas e exigem acompanhamento profissional. O tratamento da obesidade não deve ser motivo de vergonha, assim como o uso desses medicamentos não deve ser banalizado. Corpos têm histórias distintas, atravessadas por fatores genéticos, orgânicos e emocionais. Aparência não é diagnóstico, tampouco medida de caráter.

Prosperidade também é construir relações em que ninguém precise diminuir a si mesmo para ser aceito. Diante da discriminação, a solidariedade e o compromisso com a dignidade humana não são gestos de favor, mas expressões de responsabilidade coletiva.

Afinal, que sociedade estamos construindo quando o corpo do outro se torna motivo de riso — e o que estamos dispostos a fazer para mudar isso?

Mariângela Borba é jornalista (DRT-PE 4095), assessora de imprensa, especialista em Cultura Pernambucana, produtora cultural, psicanalista em formação, pesquisadora da palavra como território de poder e autora da coluna #SendoProsperidade.