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domingo, 11 de outubro de 2026

#SendoProsperidade com Mariângela Borba


A ansiedade e a ilusão do controle

Aprender a conviver com as incertezas também é uma forma de prosperidade.

Por Mariângela Borba

Há momentos em que a ansiedade não chega como um alarme, mas como uma tentativa insistente de antecipar a vida. Ela aparece na necessidade de prever cenários, evitar perdas e encontrar respostas antes mesmo que as perguntas surjam. No fundo, buscamos uma promessa impossível: a de que, se pensarmos o suficiente, conseguiremos controlar o que ainda não aconteceu.

Celebrado em 10 de outubro, o Dia Mundial da Saúde Mental nos convida a olhar para uma experiência comum: a inquietação diante do que não sabemos e não podemos controlar.

O oposto da ansiedade não é necessariamente a calma. Podemos estar inquietos e, ainda assim, sentir segurança. Muitas vezes, o que nos desestabiliza é a ausência de garantias sobre o futuro.

Em O mal-estar na civilização (1930), Freud reflete sobre as fontes do sofrimento humano, entre elas as ameaças do mundo externo e as dificuldades das relações. Nem tudo depende de nós, e parte do desgaste nasce da tentativa de encontrar garantias onde elas não existem.

Séculos antes, Epicteto propunha uma distinção fundamental: há coisas que dependem de nós e outras que escapam ao nosso controle. Reconhecer essa diferença não significa cruzar os braços, mas concentrar a energia no que podemos transformar.

Podemos rever atitudes, escolher palavras, estabelecer limites e decidir onde colocamos nossa atenção. Isso não significa controlar todos os pensamentos ou sentimentos. Quando a ansiedade persiste e compromete a rotina, buscar ajuda profissional é um gesto de cuidado e responsabilidade.

Neste mês dedicado à saúde mental, vale lembrar: cuidar de si não é ignorar os problemas do mundo, mas impedir que a preocupação nos afaste do presente.

É nesse limite — entre o que podemos fazer e o que precisamos entregar — que a fé pode encontrar espaço.

Em 12 de outubro, celebramos Nossa Senhora Aparecida. Para tantos brasileiros, sua imagem representa acolhimento, esperança e amparo nos momentos difíceis. Na homilia do padre Alexandre, ouvi uma analogia que me tocou: Nossa Senhora Aparecida é como o corpo, e nós somos os seus membros. Por isso, os pescadores não a encontraram inteira, mas em partes — como se a unidade pudesse se revelar justamente nos fragmentos.

A fé não elimina as incertezas nem substitui o cuidado com a saúde mental, mas pode oferecer sentido, consolo e recolhimento para atravessá-las. Confiar em Deus também é reconhecer os próprios limites e fazer, com responsabilidade, o que está ao nosso alcance.

Talvez prosperar seja isso: agir com consciência, acolher a vulnerabilidade e seguir em frente, mesmo quando o caminho ainda não está claro.

A vida acontece no presente, entre limites e possibilidades. A liberdade talvez comece quando deixamos de exigir certezas e confiamos no próximo passo.

Se não podemos controlar tudo, que escolha faremos hoje para cuidar da vida que já está acontecendo?

Mariângela Borba é jornalista (DRT-PE 4095), especialista em Cultura Pernambucana, produtora cultural, psicanalista em formação, pesquisadora da palavra como território de poder e autora da coluna #SendoProsperidade.