Por Mariângela Borba
A gente se leva muito a sério. E, às vezes, confunde seriedade com formalidade, palavras difíceis, roupa impecável, voz impostada e uma certa distância de quem está do outro lado.
Mas comunicação não é fantasia.
A roupa não faz o monge, já diz o velho ditado. Vestir-se sofisticadamente, falar corretamente e dominar o assunto não significa transformar a própria maneira de se comunicar em uma espécie de personagem.
Também não é o contrário. Autenticidade não é sinônimo de desleixo. Não significa vestir-se de qualquer jeito, falar sem considerar o contexto, despejar gírias ou palavras de baixo calão e chamar tudo isso de “ser espontâneo”.
Existe uma coluna do meio.
Profissionalismo importa. Credibilidade importa. A forma como nos apresentamos também comunica. Mas nada disso deveria custar a pessoa que existe por trás da apresentação.
Porque, do outro lado, existe alguém.
É aí que a comunicação deixa de ser apenas transmissão de informação e passa a ser encontro. Jürgen Habermas ajuda a pensar essa dimensão da linguagem: comunicar pressupõe uma relação entre sujeitos. Não se trata apenas de falar bem, mas de construir algum terreno comum com quem escuta.
E isso vale até quando a conversa acontece entre empresas. No Business to Business, por trás de cada CNPJ há pessoas. Há quem apresente, quem negocie, quem responda, quem espere, quem se frustre e quem decida.
Quanto mais distante a comunicação fica de quem realmente somos, mais difícil pode ser estabelecer conexão. Sem conexão, o interesse diminui. Sem interesse, o elo se enfraquece. Aos poucos, aquilo que deveria aproximar passa a produzir distância.
A psicanálise oferece outra chave interessante para essa conversa.
Winnicott diferenciou o verdadeiro self do falso self, mostrando como a adaptação faz parte da vida social, mas também como ela pode se tornar problemática quando o sujeito precisa se afastar demais de si para corresponder às expectativas externas.
Não se trata de sair por aí dizendo tudo o que se pensa ou recusando qualquer adaptação. Ninguém se comunica da mesma maneira em uma reunião de trabalho, em uma sala de aula, com os amigos ou dentro de casa.
A questão é outra: quanto da nossa comunicação é adaptação necessária e quanto já virou personagem?
E talvez o Setembro Amarelo nos ajude a lembrar de algo que ultrapassa o ambiente profissional: por trás de cada fala, mensagem e silêncio existe uma pessoa. Vínculos importam. Uma comunicação acolhedora não substitui cuidado especializado, mas ser ouvido, reconhecido e levado em consideração também faz parte da experiência de estar no mundo.
Talvez comunicação de alta performance tenha menos a ver com impressionar e mais com conseguir chegar ao outro sem desaparecer no caminho.
A melhor comunicação não é necessariamente a mais formal, a mais sofisticada ou a mais eloquente.
É aquela que consegue preservar a credibilidade sem sacrificar a humanidade.
Porque existe, sim, uma coluna do meio: o espaço onde as conexões reais acontecem.
Quando nos despimos do excesso de formalidade e da necessidade de impressionar, abrimos espaço para a autenticidade. Não para abandonar o profissionalismo, mas para fazer caber, na mesma comunicação, o conhecimento que nos dá credibilidade e a pessoa que somos.
É nesse espaço que clareza e empatia podem ter mais força do que jargões técnicos ou posturas artificiais.
Afinal, pessoas se conectam com pessoas — não com personagens perfeitos.
E talvez seja justamente nessa coluna do meio que a gente encontre a própria voz.
Como você enxerga a aplicação dessa “coluna do meio” no seu dia a dia?
Mariângela Borba é jornalista (DRT-PE 4095), especialista em Cultura Pernambucana, produtora cultural, psicanalista em formação, pesquisadora da palavra como território de poder e autora da coluna #SendoProsperidade.