ÚLTIMAS NOTÍCIAS
Carregando manchetes...

Faça sua pesquisa aqui no Blog

domingo, 27 de setembro de 2026

#SendoProsperidade com Mariângela Borba

Quando escolher deixa de ser escolha

Liberdade nas relações também exige espaço para a própria voz

Por Mariângela Borba

Há histórias que nos fazem parar. E há perguntas que permanecem, mesmo quando não temos respostas prontas.

Uma delas diz respeito à liberdade dentro das relações. Até que ponto o desejo de estar junto respeita a individualidade de cada um? Quando o cuidado deixa de ser apenas presença e passa a ocupar o espaço que deveria pertencer à escolha do outro?

Nem sempre é simples perceber quando, em nome do amor, começamos a abrir mão de partes importantes de nós mesmas. Aos poucos, os próprios desejos podem ficar em segundo plano. As escolhas passam a considerar primeiro as expectativas alheias. E aquilo que parecia uma concessão pontual corre o risco de se tornar hábito.

Relações humanas não são equações. Existe afeto, dependência, esperança, medo, culpa e a promessa de mudança. Existe também o desejo de preservar aquilo que construímos com alguém, mesmo quando já não distinguimos com clareza as necessidades do outro das nossas.

Jean-Jacques Rousseau pensou a liberdade a partir de uma questão política: como permanecer livre sem estar submetido à vontade de outro? Trazida para a intimidade, a pergunta ganha outra dimensão:

Que liberdade existe quando a vontade de uma pessoa começa a organizar a vida da outra?

Autonomia não significa apenas poder escolher. Importa também ter espaço para escolher. Isso envolve reconhecer que uma relação não exige o desaparecimento das diferenças, tampouco a renúncia à própria voz.

É nesse ponto que escutar se torna uma forma de cuidado.

Cremilda Medina, em Entrevista: o diálogo possível (2008), propõe uma reflexão sobre a escuta que ultrapassa o jornalismo. Antes de interpretar, escutar; antes de aconselhar, compreender; antes de decidir pelo outro, perguntar o que ele próprio está tentando dizer.

Na comunicação, como nas relações, o diálogo não se estabelece quando uma pessoa assume o lugar de quem sabe o que é melhor para a outra. Escutar pressupõe reconhecer que o outro tem uma história, desejos e razões que nem sempre conhecemos.

Isso não significa permanecer indiferente diante de alguém em sofrimento. Respeitar a autonomia pode significar oferecer presença para que o outro consiga recuperar a própria voz, sem impor respostas ou determinar caminhos.

Setembro costuma nos lembrar disso quando falamos em prevenção ao suicídio.

Mas sofrimento não conhece calendário.

Se setembro serve para ampliar a conversa, que ela continue em outubro, novembro, dezembro — e recomece em janeiro.

Prevenção não deveria ter prazo de validade. Tampouco o cuidado com a saúde emocional deveria depender de uma data ou de uma situação extrema para ganhar espaço nas nossas conversas.

Nenhum de nós conhece inteiramente a dor que o outro carrega. Por isso, talvez seja necessário escutar mais e presumir menos. Reconhecer que nem toda escolha é simples e que oferecer apoio não significa decidir pelo outro.

Para nós, mulheres, talvez exista ainda uma pergunta que mereça permanecer aberta:

Quantas vezes aprendemos a chamar de amor aquilo que, aos poucos, nos ensina a abrir mão de nós mesmas?

Mariângela Borba é jornalista (DRT-PE 4095), especialista em Cultura Pernambucana, produtora cultural, psicanalista em formação, pesquisadora da palavra como território de poder e autora da coluna #SendoProsperidade.