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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

#SendoProsperidade com Mariângela Borba

#SendoProsperidade
Nem toda conversa precisa de um vencedor

Há conversas que terminam antes mesmo de começar. Basta alguém dizer “eu penso diferente” para o outro, em vez de escutar, começar a preparar a resposta ou, quando se trata de alguém mais polido, simplesmente tirar o time de campo.

É comum, hoje em dia, não ouvirmos exatamente o que foi dito. Ouvirmos aquilo que imaginamos que precisaremos rebater.

Talvez por isso tantas conversas tenham adquirido a atmosfera de um debate. Uma opinião provoca outra. A outra vem acompanhada de uma justificativa. A justificativa pede uma réplica. E, quando percebemos, já não estamos tentando compreender. Estamos tentando vencer.

Mas quem disse que toda conversa precisa de um vencedor?

Nosso cérebro pode interpretar uma opinião divergente como ameaça — não necessariamente física, mas às nossas certezas, à imagem que fazemos de nós mesmos ou ao grupo ao qual sentimos pertencer.

 Quando entramos em modo de defesa, escutar fica mais difícil.

O outro deixa de ser alguém com uma experiência diferente da nossa e passa a ocupar o lugar de quem precisa ser convencido.

Talvez seja aí que comece boa parte da nossa dificuldade de conversar.

Vivemos cercados por estímulos, opiniões, notificações, comentários e respostas imediatas. Fala-se muito. Reage-se muito. Compartilha-se muito. Mas excesso de comunicação não significa, necessariamente, encontro.

Byung-Chul Han nos ajuda a pensar sobre essa sociedade permanentemente mobilizada: produzir, responder, comentar, posicionar-se. Até o silêncio parece precisar de justificativa.

Levamos essa lógica para as relações.

Alguém fala. Respondemos.

Alguém discorda. Contra-argumentamos.

Alguém não concorda conosco. Insistimos.
Como se toda conversa precisasse chegar a algum lugar — e esse lugar tivesse de ser a nossa razão.

Mas talvez exista uma pergunta anterior.

Quando digo “eu quero”, de onde vem esse desejo?
Lacan nos lembra que o desejo humano não nasce isolado. O outro participa dele. O olhar, o reconhecimento, aquilo que imaginamos que o outro deseja: tudo isso atravessa aquilo que chamamos de “meu”.

Talvez nossa necessidade de convencer também carregue alguma coisa dessa ordem. Não basta pensar. Queremos que o outro reconheça nosso pensamento como válido. Às vezes, queremos mais: queremos que ele concorde.

E quando ele não concorda?

É justamente aí que o diálogo pode deixar de ser uma disputa por razão e se tornar possibilidade de entendimento. Habermas pensou a comunicação também como espaço em que sujeitos podem buscar compreensão, em vez de apenas utilizar a linguagem para impor posições.

A Doutrina Social da Igreja oferece outra pista importante: a dignidade do outro não depende da sua concordância comigo. Solidariedade, fraternidade e bem comum pressupõem convivência — e convivência pressupõe diferença.

Escutar não é concordar.

Discordar não é desrespeitar.

E mudar de ideia não deveria ser uma derrota.

Existe uma liberdade discreta em não precisar responder a tudo, corrigir cada equívoco ou vencer cada argumento.

Recentemente, diante de uma discordância, eu poderia ter insistido. Poderia ter levantado contra-argumentos, explicado novamente meu ponto de vista, tentado convencer. Preferi ouvir, compreender a posição do outro e seguir adiante.

Nada foi perdido. Afinal, estamos todos em permanente construção.

A conversa simplesmente não precisou virar disputa.
A vida não é um campo de batalha. Nem toda diferença precisa produzir um inimigo. Nem toda conversa precisa nos levar ao consenso.

Algumas terminam apenas com duas pessoas entendendo melhor onde cada uma está. Outras deixam uma pergunta. Outras mudam alguma coisa dentro de nós. E há aquelas que simplesmente terminam.
Tudo bem.

Talvez prosperar também seja isso: preservar a capacidade de estar diante do outro sem transformar toda diferença em ameaça.

Porque conviver não é fazer o outro pensar como nós. É aprender a permanecer humanos quando ele não pensa.
E se, antes de perguntar por que o outro não concorda comigo, eu perguntasse o que há em mim que precisa tanto da concordância dele?

Mariângela Borba é jornalista (DRT-PE 4095), especialista em Cultura Pernambucana, produtora cultural, psicanalista em formação, pesquisadora da palavra como território de poder e autora da coluna #SendoProsperidade.