ÚLTIMAS NOTÍCIAS
Carregando manchetes...

domingo, 2 de agosto de 2026

#SendoProsperidade com Mariângela Borba

O silêncio que nos empobrece

Por Mariângela Borba

Comecei a semana pensando em escrever sobre inteligência artificial. Mas a vida, às vezes, impõe temas que nenhum algoritmo seria capaz de produzir.

Uma colega, também comunicóloga e psicanalista em formação,  me enviou o trecho de uma fala em que um influenciador brasileiro, hoje vivendo nos Estados Unidos, chamou jornalistas de “putas”. Não era uma crítica à imprensa, nem um debate sobre apuração, ética ou divergência editorial. Era algo mais antigo e mais revelador: a tentativa de reduzir mulheres que ocupam espaços de fala à humilhação sexual. Talvez o mais perturbador dessa história não seja apenas a ofensa dirigida às jornalistas, mas a naturalidade com que ainda se usa a palavra ‘puta’ como instrumento de desqualificação de mulheres.

E foi impossível não me perguntar: quando foi que confundimos liberdade de expressão com licença para degradar pessoas?

Freud ajudou a compreender esse fenômeno. Em Psicopatologia da Vida Cotidiana, ele demonstra que palavras aparentemente banais, lapsos e escolhas linguísticas frequentemente revelam conteúdos inconscientes que tentamos disfarçar. Certos insultos, mesmo quando apresentados como brincadeira ou opinião, não surgem do nada; expõem estruturas de pensamento sedimentadas culturalmente.

E coincidentemente nesta construção, nesta se mana recebi um convite para assistir a um espetáculo chamado Meretrizes, do Coletivo Gompa, do Rio Grande do Sul, em cartaz na Caixa Cultural Recife até 7 de agosto. Em cena, a atriz Liane Venturella divide o palco com mulheres reais que habitam o contexto urbano, construindo um espaço de denúncia contra diferentes formas de opressão cotidiana. A montagem, dirigida por Camila Bauer — vencedora do troféu de Melhor Direção na 36ª edição da premiação, em março de 2026 — une teatro, piano executado ao vivo e relatos de profissionais do sexo em uma experiência artística de rara delicadeza.

Saí dali lembrando de uma frase que construí mentalmente, durante o espetáculo, quase como um sussurro interior: a arte, às vezes, não serve para confrontar; serve para ampliar o olhar.

Uma das mulheres que participou do debate era uma mulher com trajetória de liderança, pensamento e história, sem qualquer “letreiro na testa” que a identificasse antes de falar, está há 45 anos na prostituição preside uma associação em Belo Horizonte e falou com uma lucidez que desmonta muitos preconceitos confortavelmente cultivados à distância. Outra, mais jovem, revelou a mesma elegância e a mesma propriedade ao narrar sua experiência.

Foi impossível não perceber que o problema não é a existência das prostitutas, mas a facilidade com que a palavra “puta” continua sendo usada como arma para desqualificar mulheres que ousam ocupar espaços públicos de fala, quando nenhuma profissão deveria servir como instrumento de humilhação.

Vivemos um tempo em que a palavra liberdade é repetida com fervor, mas nem sempre acompanhada da responsabilidade ética que lhe dá sentido.

O Papa recordou recentemente que ama os Estados Unidos pelo sentido de liberdade, pelas oportunidades e pela capacidade de acolher pessoas de diferentes origens em uma mesma nação. Essa visão está muito mais próxima da Doutrina Social da Igreja — universal e profundamente humana — do que qualquer discurso que use a fé como identidade de grupo enquanto despreza pessoas concretas.

Ora, mas talvez o problema não seja apenas político, mas moral.

Há quem possua visibilidade, seguidores, influência e dinheiro, mas permaneça incapaz de reconhecer a humanidade de quem pensa diferente. Como diz o velho ditado: tem gente que é tão pobre que só tem dinheiro.

Foi então que me lembrei de Carl Gustav Jung. Para ele, o silêncio podia ser um espaço fértil de encontro com a alma. Mas existia também um silêncio perigoso: aquele que nasce do entorpecimento.

Quando nos acostumamos à misoginia tratada como piada, à violência verbal transformada em entretenimento e à humilhação convertida em espetáculo político, corremos o risco de chamar anestesia de equilíbrio.

Esse silêncio não é paz. É desconexão.

Ele começa de forma quase imperceptível: deixamos passar uma agressão porque “não vale a pena discutir”; toleramos abusos para evitar conflitos; seguimos funcionando mecanicamente enquanto algo essencial dentro de nós vai se apagando. Jung advertia que aquilo que negamos não desaparece — apenas desce para a sombra, de onde continua influenciando escolhas, relações e destinos coletivos.

Por isso, resiliência não pode ser confundida com submissão.

Existe uma sabedoria oriental que fala sobre transformar adversidade em crescimento. Mas transformar dor em aprendizado é muito diferente de romantizar o sofrimento. Maturidade não é suportar tudo calada.

A arte de sobreviver às feridas não está em glorificá-las, mas em impedir que elas nos transformem naquilo que nos feriu.

Como nos lembra Lacan, quase como um sussurro incômodo: “amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer”. Talvez a maturidade consista justamente em reconhecer que há lealdades que não podem exigir o sacrifício da própria consciência.

No fim, percebo que comecei a semana pensando em inteligência artificial e terminei refletindo sobre algo muito mais decisivo: a inteligência moral.

Tecnologias sofisticadas continuarão surgindo. O verdadeiro desafio será preservar a dignidade humana em meio ao ruído, à conveniência e à tentação permanente de transformar pessoas em alvos.

Talvez “Bicho de 7 Cabeças”, de Geraldo Azevedo, Zé Ramalho e Renato Rocha, faça tanto sentido porque fala daquilo que tentam nos convencer a suportar em silêncio. Há dias em que o debate público parece exatamente isso: muitas vozes, muitas certezas e pouquíssima humanidade.

E Meretrizes trouxe melhor essa inquietação. A presença, o corpo, a escuta e o piano pulsando ao vivo criavam um contraste doloroso com a brutalidade abstrata das redes sociais, onde palavras são lançadas como projéteis sem que se veja o rosto, a história ou a humanidade de quem é atingido.

O silêncio que protege a alma é muito diferente do silêncio que a aprisiona.

Prosperidade não é vencer guerras de narrativas. Prosperidade é permanecer humana quando o mundo parece premiar exatamente o contrário.

Mariângela Borba é jornalista (DRT-PE 4095), especialista em Cultura Pernambucana, produtora cultural, pesquisadora da palavra como território de poder e autora da coluna #SendoProsperidade 🌻