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segunda-feira, 20 de julho de 2026

#SendoProsperidade com Mariângela Borba

Entre o último tango e a primeira dança

Por Mariângela Borba

O mundo inteiro assistiu à Espanha levantar a taça.

Muitos acompanharam, emocionados, o que pode ter sido o último tango de Lionel Messi em uma Copa do Mundo.

Poucos perceberam, porém, que aquela final falou menos sobre futebol e muito mais sobre o tempo.

Sobre ciclos.

Sobre construção.

E sobre a delicada arte de saber partir para que outros possam chegar.

De um lado estava Messi. Não apenas um dos maiores jogadores da história, mas um símbolo de uma geração que transformou talento em referência. Do outro, Lamine Yamal, apenas dezenove anos, carregando nos pés a leveza de quem ainda escreve os primeiros capítulos da própria trajetória.

Entre eles, uma fotografia voltou a emocionar o mundo.

Em 2007, durante uma ação beneficente, um jovem Messi segurava um bebê numa banheira. Dezenove anos depois, aquele mesmo bebê vestia a camisa 19, conquistava a Copa do Mundo e fazia do acaso uma dessas coincidências que parecem ter sido escritas pelo próprio tempo.

Há imagens que só revelam seu verdadeiro significado muitos anos depois.

A vida também parece ser assim.

Com as palavras não é diferente. Algumas parecem pequenas quando nascem. Só o tempo revela a força viva que carregavam dentro de si.

Yamal não representa apenas uma nova geração do futebol. Filho de pai marroquino e mãe da Guiné Equatorial, tornou-se um dos rostos de uma Espanha diversa e plural. Fora de campo, chama atenção pela simplicidade com que preserva os vínculos afetivos. Seja ao lado da mãe, do pai ou brincando com o irmãozinho de apenas três anos, parece lembrar ao mundo que, antes de ser um fenômeno, continua sendo filho.

Continua sendo irmão.

Quem conhece as próprias raízes consegue florescer sem esquecer de onde veio.

Enquanto muitos brasileiros pareciam comemorar mais a derrota da Argentina do que propriamente a vitória espanhola, a neurociência nos lembra que nosso cérebro responde intensamente às comparações sociais. Ver um rival perder pode ativar circuitos ligados à recompensa, produzindo uma satisfação imediata.

Mas existe uma diferença importante entre recompensa e realização.

A primeira passa.

A segunda permanece.

A Espanha nos ensinou outra lição.

Dominou praticamente toda a partida. Criou oportunidades, controlou o jogo, insistiu. Ainda assim, precisou esperar a prorrogação para transformar domínio em conquista.

Quase nunca o resultado é proporcional ao esforço no tempo em que desejamos.

Isso vale para o esporte.

Vale para o trabalho.

Vale para os afetos.

Vale para a vida.

Vivemos sob o império da urgência. Tudo parece precisar acontecer imediatamente. Confundimos velocidade com sucesso, resultado com mérito e visibilidade com reconhecimento.

Esquecemos que as grandes construções amadurecem em silêncio.

Lacan nos ensinou que o desejo não obedece ao tempo do relógio. Por isso, algumas vitórias também não. Há gols que chegam apenas na prorrogação da vida, quando já estávamos convencidos de que não aconteceriam.

Quantas vezes desistimos justamente quando o gol já estava sendo construído?

Essa foi, para mim, a maior lição daquela final.

Não confundir demora com fracasso.

Não abandonar a obra porque a recompensa ainda não apareceu.

Não desistir porque o relógio insiste em caminhar mais devagar do que os nossos desejos.

Enquanto muitos enxergavam apenas uma disputa entre seleções, eu via uma metáfora da própria existência.

O último tango de Messi não diminui sua grandeza.

A primeira dança de Yamal não apaga quem veio antes.

Ao contrário.

Um só existe porque o outro ajudou a abrir o caminho.

No show do intervalo, o Brasil também esteve presente. Pelé iluminava o telão. Ronaldinho Gaúcho e Ronaldinho Fenômeno lembravam ao mundo que o talento verdadeiro não desaparece quando deixa os gramados. Ele permanece como memória, inspiração e exemplo para quem chega depois.

A vida não nos pede apenas que saibamos vencer.

Ela também nos pede que saibamos transmitir.

Porque nenhuma herança humana termina em quem a construiu.

Ela continua vivendo em quem foi inspirado por ela.

É exatamente isso que chamo de prosperidade.

Construir hoje aquilo que continuará florescendo amanhã.

Mesmo que o gol só saia na prorrogação.

Porque algumas vitórias não chegam no tempo da ansiedade.

Chegam no tempo do amadurecimento.

E, quando finalmente aparecem, percebemos que nunca nasceram naquele instante.

Vinham sendo construídas muito antes.

Há palavras que permanecem.

Há gestos que atravessam gerações.

Há legados que continuam dançando, mesmo quando a música parece ter chegado ao fim.

Porque a verdadeira grandeza não está apenas em levantar uma taça.

Está em deixar um caminho para que outros também possam dançar.

E você? Está desistindo porque o gol ainda não saiu... ou continua construindo, sabendo que algumas das maiores vitórias da vida só chegam na prorrogação?

Mariângela Borba é jornalista (DRT-PE 4095), especialista em Cultura Pernambucana, produtora cultural, pesquisadora da palavra como território de poder e autora da coluna #SendoProsperidade. 🌻