Só é ruim não poder abraçá-la
"Mamãe está comigo. Só é ruim porque eu não posso
abraçá-la."
Por Mariângela Borba
Há crianças que nos ensinam aquilo que adultos passam a vida
inteira tentando compreender.
Foi impossível assistir à entrevista da pequena Antonela
durante a cobertura da Festa de Nossa Senhora do Carmo, padroeira do Recife,
sem sentir o mesmo impulso confessado pela jornalista Bianka Carvalho:
simplesmente abraçá-la.
Dois meses antes, ela havia perdido a mãe.
Ainda assim, quando perguntada sobre a saudade, respondeu
com uma serenidade que não negava a dor, mas também não permitia que ela
tivesse a última palavra.
Sua mãe continuava com ela.
Apenas não podia abraçá-la.
Há uma profundidade desconcertante nessa resposta.
Vivemos numa cultura que tenta explicar tudo, superar tudo e
seguir em frente rapidamente, como se o luto fosse um problema a ser resolvido
e não uma travessia a ser vivida.
É justamente por isso que aquela frase tocou tanta gente.
Ela nos lembra que existem ausências que retiram a presença
física, mas não conseguem expulsar o amor da vida de quem fica.
Nem da vida de quem parte.
Donald Winnicott dizia que o primeiro ambiente da existência
humana é o colo. Muito antes das palavras, aprendemos segurança, confiança e
pertencimento nos braços de quem nos acolhe.
Quando uma mãe parte, não perdemos apenas uma pessoa.
Perdemos o primeiro lugar onde aprendemos o que significa
abrigo.
É como se uma parte da nossa geografia afetiva fosse
alterada para sempre.
A neurociência ajuda a compreender esse fenômeno ao mostrar
que os vínculos afetivos não desaparecem com a morte. Eles permanecem inscritos
na memória emocional, influenciando nossa forma de amar, de lembrar e até de
sentir proteção. O cérebro registra o vínculo — o coração continua chamando de
saudade.
Talvez seja por isso que aquela menina tenha respondido com
tanta naturalidade que sua mãe continuava ali.
Porque, de alguma maneira, continuava mesmo.
Freud chamava de pulsão de vida essa extraordinária
capacidade humana de continuar amando, criando vínculos e encontrando sentido
mesmo quando a morte atravessa nossa história.
Não se trata de negar a ausência.
Trata-se de permitir que o amor sobreviva a ela.
Soube, depois, que aquela criança é conhecida pela família
como uma menina arco-íris, expressão usada para filhos que chegam depois de
perdas gestacionais.
Achei impossível não enxergar aí um símbolo.
Sua própria existência já havia nascido carregando a marca
da esperança.
Agora, diante de outra perda, ela volta a nos ensinar que a
vida continua encontrando caminhos para florescer.
Também quero registrar minha admiração pela sensibilidade da
jornalista Bianka Carvalho.
Quando confessou que sua vontade era apenas abraçar aquela
criança, deixou de ser apenas a repórter diante da câmera. Tornou-se expressão
de algo profundamente humano: a capacidade de reconhecer a dor do outro sem
perder a ternura.
Há momentos em que o jornalismo ultrapassa a informação.
Ele acolhe.
Ele humaniza.
Ele nos lembra que agir com gentileza, oferecer presença e
permitir que o amor atravesse nossas atitudes talvez seja uma das formas mais
concretas de tornar Deus visível entre nós.
Ninguém fala de como é difícil estar quebrado por dentro e,
ainda assim, precisar continuar funcionando.
Aquela menina, sem saber, falou por milhares de filhas e
filhos que carregam essa saudade silenciosa.
Nenhum de nós poderia devolver-lhe o abraço que ela tanto
deseja.
Quem já perdeu a mãe sabe que há abraços que continuam sendo
procurados mesmo quando a vida segue em frente.
Há saudades que não pedem explicação. Apenas permanecem...
Mas, por alguns instantes, Antonela conseguiu oferecer ao
Brasil inteiro algo igualmente precioso.
Essa foi, para mim, a maior reportagem daquele dia.
Não a da festa.
Não a da procissão.
Mas a de uma menina que, em poucas palavras, lembrou ao
Brasil inteiro uma verdade que costumamos esquecer: o amor não termina quando a
presença física acaba.
Às vezes, ele apenas muda de forma.
E continua vivendo onde sempre viveu: na memória, no afeto e
no abraço que seguimos procurando, mesmo quando já não podemos mais tocá-lo.
Mariângela Borba é jornalista (DRT-PE 4095), especialista em
Cultura Pernambucana, produtora cultural, pesquisadora da palavra como
território de poder e autora da coluna #SendoProsperidade. 🌻