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| Carlos Dafé, atualmente - Foto: Site Jazz is Dead |
🎼A infância de Carlos Dafé nunca foi comum. Enquanto os meninos da Vila Isabel corriam atrás de pipas e piões, ele se encantava com o som que preenchia sua casa. A mãe poetisa, a avó sanfoneira, os irmãos músicos e o pai, um “chorão” virtuoso, formavam o ambiente perfeito para moldar um artista. Dafé cresceu ouvindo rádio, gramofones antigos e tudo o que pudesse ampliar seu repertório: música regional, jazz, clássicos, radionovelas. “A natureza é quem manda em tudo”, ele diz, lembrando das árvores frutíferas e plantas medicinais que cercavam sua casa — cenário que alimentava sua imaginação e sensibilidade musical.
🎹O primeiro instrumento veio de uma troca improvável: uma bicicleta por um acordeon. O menino que não aprendeu a pedalar tornou-se “Zezinho do Acordeon”, nome que carregou até a juventude. O artista “Carlos Dafé” surgiria apenas nos anos 1970, quando o maestro José Missin — convencido por Roberto Menescal e Ivan Lins — o contratou. Uma gíria mal interpretada ao telefone (“vai dar pé”) virou “Carlos da Fé”, nome do primeiro compacto, lançado em 1972. Em 1974, João Araújo (sim, o pai do Cazuza), da Som Livre, refinou o batismo: nascia oficialmente Carlos Dafé.
🎤O soul chegou ao Brasil pelos LPs importados dos Estados Unidos, e Dafé foi um dos primeiros a persegui-los nas raras lojas que os vendiam. Como fuzileiro naval, aproveitou uma passagem por Miami para comprar discos que moldariam sua estética. Na Marinha, conheceu o Caribe, Martinica, Porto Rico e Curaçau, absorvendo jazz e música caribenha. Em 1970, excursionou com o grupo Fuzi 9 e teve uma composição como tema de filme. Nelson Motta, impressionado com sua elegância — “Meu pai sempre disse que é pra gente andar bem-vestido, com os sapatos engraxados” — lhe deu o epíteto que o acompanha até hoje: “O Príncipe do Soul”.
🖤O Movimento Black Rio marcou profundamente sua trajetória. Inspirado pelo Movimento dos Direitos Civis nos EUA, o movimento brasileiro era cultural, estético e identitário. “Eu tenho consciência da minha negritude”, afirma. Os jovens negros se vestiam com elegância, exibiam cabelos e sapatos impecáveis, mas eram frequentemente revistados e agredidos pela polícia. Ainda assim, resistiam dançando, criando e celebrando a música. Dafé lembra que ninguém ali era envolvido com crime ou política — eram trabalhadores, artistas, famílias. “A música me tirou do invisível”, ele diz, reconhecendo o poder transformador da arte.
🎶Seu maior sucesso, “Pra que Vou Recordar o que Chorei”, nasceu de uma história dramática. Enquanto trabalhava como baixista no Hotel Nacional, testemunhou o sofrimento de uma bailarina clássica que havia perdido a amiga e queria morrer também. A música, composta em 1973/74, ajudou a salvá-la — e anos depois, ela reapareceu viva, casada e mãe de gêmeos. A canção, que ele chama de “bossa negra” e “samba sofisticado”, foi tema da novela Dona Xepa e tem cerca de 100 regravações em vários idiomas. Vaiado no Rio na primeira apresentação, foi ovacionado em São Paulo após a novela.
🌺O processo criativo de Dafé nasce da observação. “Gosto de estar no meio do povo, de conversar com o povo”, diz. Muitas músicas surgiram de caminhadas, conversas e da natureza. “Passarela”, por exemplo, nasceu ao observar o jardim de casa, tão colorido quanto os desfiles de Carnaval. Outras canções, como “Tudo era Lindo”, “Carta de Amor” e “A Cruz”, também vieram desse olhar atento. Ele conta histórias com humor: um homem enorme ameaçou matá-lo porque a namorada chorou lembrando o ex ao ouvir “A Cruz”. No fim, se abraçaram. Não à toa, a esposa de Mano Brown o chamou de “Griô”, guardião das histórias e da ancestralidade.
🔥 Dafé segue ativo porque segue curioso. Observa os jovens, aprende com eles e transmite o que sabe. “Quem sente alguma coisa, tem que falar e quem quer aprender, tem que observar”, afirma. Ele incentiva estudo, disciplina e respeito. Em 2010, recebeu o “Título de Cidadão Paulistano” e o “Prêmio Orilaxè”. Hoje, vê seus filhos e neto seguirem na produção musical. E deixa uma mensagem poderosa: “Se for descansar só quando morrer, prefiro viver cansado”, finaliza
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| Carlos Dafé - Anos 1970 - Foto: Site Jazz is Dead |
Vamos de entrevista?
Como sua infância influenciou sua formação musical e quais memórias ainda aparecem na sua obra?
Minha infância foi diferente. Enquanto os outros meninos gostavam de soltar pipa, pião, jogar bola, eu preferia a música que já rolava em casa. Minha mãe era poetisa, minha avó sanfoneira, meus irmãos músicos e meu pai era o ás do Chorinho. Ouvia rádio, gramofones antigos, música regional, jazz, clássicos. Absorvi tudo. Nasci na Vila Isabel, berço de Noel Rosa e Martinho da Vila. A casa tinha árvores frutíferas, plantas medicinais e nas festas ganhávamos instrumentos de brinquedo. Meu pai tirava som de verdade e eu queria aprender. Ganhei uma bicicleta, mas não aprendi a andar. Troquei por um acordeon. Fui conhecido como Zezinho do Acordeon. Carlos Dafé veio depois.
Entrevista de Carlos Dafé em 1979 - Arquivo Nacional
De onde surgiu o Dafé?
Nos anos 70, conheci o Maestro José Missin, indicado por Roberto Menescal e Ivan Lins. Ele entendeu errado uma gíria (“vai dar pé”) e meu nome artístico virou Carlos da Fé. Gravei meu primeiro compacto em 1972. Em 1974, João Araújo sugeriu mudar para Carlos Dafé. Gravei “O Bloco da Minha Rua” e “Passarela” na Som Livre.
Seu primeiro compacto (1972), ainda com o nome Carlos da Fé
E sobre o seu maior sucesso, “Pra que Vou Recordar o que Chorei”?
Essa canção é uma “bossa negra”, um “samba sofisticado”. Compus em 73/74, quando trabalhava como baixista no Hotel Nacional. Uma bailarina clássica morreu por amor e a amiga queria morrer também. As dançarinas pediram que eu conversasse com ela. Anos depois, o marido dela me abordou: ela escolheu viver, casou e teve gêmeos. A música a salvou. E me salvou também. Foi tema da novela Dona Xepa e tem cerca de 100 regravações. No Rio fui vaiado, mas em São Paulo fui muito aplaudido.
Seu maior sucesso, Pra que vou recordar o que chorei
Como nasce uma música no seu processo criativo?
Às vezes a melodia vem primeiro. Gosto de andar nas ruas, sentir o povo, conversar. A natureza me inspira. “Passarela” nasceu ao observar meu jardim colorido como o Carnaval. Assim criei “Tudo era Lindo”, “Carta de Amor” e “A Cruz”. Uma vez um homem disse que deveria me matar porque a namorada chorou lembrando o ex ao ouvir “A Cruz”. No fim, nos abraçamos. Gosto de contar histórias. A esposa do Mano Brown me chamou de Griô.
A canção Passarela foi inspirada por flores coloridas
Era influenciado pelo Movimento dos Direitos Civis dos EUA. Eu sou contra qualquer tipo de racismo. O Black Rio era cultural: roupas elegantes, cabelos, sapatos. Trabalhadores, gente de família. Mas éramos parados pela polícia, revistados, muitos apanhavam. Só queríamos dançar, ouvir música, mostrar nossa identidade. Eu tenho consciência da minha negritude. Hoje fico feliz em ver mais negros na mídia.
O que te mantém ativo depois de tantos anos de carreira?
Quem sente tem que falar, quem quer aprender tem que observar. Eu observava meu pai, vizinhos, amigos. Hoje observo os jovens. Se fui atrás dos mais velhos, gosto de ver o que está sendo feito agora. A gente tem que estudar, se aperfeiçoar, saber entrar e sair dos lugares. Continuo aprendendo muito.
Quem sente tem que falar, quem quer aprender tem que observar. Eu observava meu pai, vizinhos, amigos. Hoje observo os jovens. Se fui atrás dos mais velhos, gosto de ver o que está sendo feito agora. A gente tem que estudar, se aperfeiçoar, saber entrar e sair dos lugares. Continuo aprendendo muito.
Que mensagem quer transmitir aos fãs antigos e aos jovens?
Estou passando meus conhecimentos às novas gerações. Meus filhos Verônica e Jorge Mário estão na música, meu neto Cauê também. As gerações passam e a natureza manda em tudo. Deve sempre se sentir vivo. Se for descansar só quando morrer, prefiro viver cansado!


