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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

🕯️🔥 Entre o Sagrado e a Rua: Ezio Rosa Reinventa as Entidades



🌟 A obra de Ezio Rosa emerge de um Brasil onde espiritualidade, corpo e território se misturam sem pedir licença. Suas esculturas e narrativas visuais atravessam o Candomblé, a Umbanda e o cotidiano das periferias, revelando Exus e Pombagiras como figuras vivas, humanas e politicamente potentes. Ao transformar entidades em trabalhadores, mulheres trans, profissionais do sexo e pessoas vulneráveis, Ezio devolve ao sagrado sua origem popular e sua força de resistência.

🌟 O artista, criado entre benzedeiras, centros espíritas, terreiros e a fé católica de sua mãe, carrega no corpo o sincretismo que molda o Brasil. Essa mistura não é apenas referência: é matéria-prima. Em suas mãos, o sagrado deixa de ser distante e se torna vizinho, caminhando pelas mesmas ruas que ele percorre desde sempre na Zona Leste de São Paulo. A periferia, para Ezio, não é cenário — é fundamento espiritual e estético.


🌟 Ao representar Exus e Pombagiras como corpos marginalizados, Ezio denuncia o racismo religioso, a desigualdade urbana e a violência estrutural que atravessam o país. Seus “santinhos do novo mundo” são mais que esculturas: são espelhos que revelam quem somos e quem poderíamos ser. A arte, para ele, é provocação, liberdade e responsabilidade com sua própria verdade — mesmo quando isso incomoda setores mais conservadores das religiões de matriz africana.

🌟 Nesta entrevista, Ezio fala sobre sincretismo, ética, periferia, sonhos, crítica social e sobre quem serão as entidades de amanhã. Suas respostas revelam um artista que não apenas cria imagens, mas também tensiona imaginários, desloca fronteiras e reivindica novas formas de ver o sagrado no Brasil contemporâneo.



Sua trajetória passa por referências tanto do Candomblé quanto da Umbanda. Como essas experiências distintas se encontram dentro da sua produção artística?  

Eu sou iniciado no Candomblé há nove anos, e antes disso eu já frequentava alguns terreiros de Umbanda, então esses universos sempre permearam minha arte.

🔥Quando você trabalha com a figura de Exu, como diferencia o Òrìṣà do Candomblé das entidades da Umbanda, e o que cada dimensão espiritual significa para você?  

Minha arte traz muitas referências de Orixá e Entidades da Umbanda, e isso acontece de forma muito natural por conta da minha vivência frequentando ambas religiões. Nós entendemos que é cada um no seu quadrado, mas na prática essas energias acabam se misturando.

💃 A Pombagira é uma entidade profundamente ligada à Umbanda e ao cotidiano das periferias. O que te interessa nessa figura enquanto símbolo cultural e social?  

A Pombagira pra mim é um símbolo de liberdade e eu faço arte pra me sentir livre. Então naturalmente eu não poderia deixar essas figuras de fora da minha pesquisa.

🌍 Sua obra parece nascer de um Brasil onde fronteiras religiosas são fluidas. Como você enxerga esse sincretismo e como ele se manifesta nas suas criações?  

Fui criado por uma mãe católica que sempre me levou em benzedeira e centros espíritas, mais tarde conheci a Umbanda e Candomblé, então eu vivo essa questão do sincretismo de uma forma muito natural, está no DNA do Brasil. A minha arte reflete tudo de mais tocante que eu vivi e vivo na religiosidade como todo.

🧿 Ao representar entidades e divindades, você sente algum tipo de responsabilidade espiritual, ética ou comunitária? Como isso orienta suas escolhas?  

Eu me sinto responsável com a minha verdade. É claro que é preciso ter ética, mas ética é um conceito que pode ser discutido. Quero dizer, não me sinto desrespeitando o sagrado, no entanto existem religiosos que não enxergam dessa forma. Minha pesquisa se apoia na minha vivência de quase dez anos de iniciado no candomblé, somado a um olhar que foi criado pelos movimentos sociais. É impossível criar arte sem colocar o dedo em algumas feridas.

🏙️ A periferia é um espaço onde Umbanda, Candomblé e outras práticas convivem. Como esse território espiritual influencia sua visão estética?  

Nunca morei em outro lugar que não fosse a periferia, então esse ponto de vista está intrinsecamente ligado a minha forma de fazer arte. É o meu ponto de partida para qualquer lugar que eu vá.

Você frequentemente associa entidades a corpos vulneráveis ou marginalizados. O que essa aproximação revela sobre o Brasil de hoje?  

O meu trabalho com os santinhos do novo mundo é também uma denúncia. Esse trabalho é uma reflexão profunda da religiosidade e sociedade contemporânea, como os atravessamentos que a gente vive possam coexistir.

🔥 Como você lida com críticas vindas de religiosos que consideram suas releituras ousadas demais ou fora da tradição?  

Eu lido bem! A arte ela existe para provocar, fazer pensar, deixar inquieto… E quando percebo que as pessoas estão discutindo sobre a minha arte, me sinto no caminho certo. Gosto de convidar as pessoas a pensarem fora das suas zonas de conforto.

🌙Seu processo envolve sonhos, vivências e símbolos espirituais. Como esses elementos se transformam em imagem, forma e narrativa?  

Sou diariamente inspirado por tudo que me cerca, mantenho o olhar afiado pra de fato enxergar quem está a minha volta. Ver e enxergar não são a mesma coisa e isso muda totalmente minha forma de fazer arte.

🔮Quando você imagina “quem serão as entidades de amanhã”, o que você acredita que está mudando na forma como o Brasil se relaciona com Exu, Pombagira e os Òrìṣàs?  

Existe um movimento de artistas que estão conseguindo traduzir os elementos das religiões de matriz africana de uma forma muito original e tocante, esses artistas são pilares na discussão sobre arte contemporânea e racismo religioso. Com a minha arte quero refletir sobre essas questões e de alguma forma fazer parte desse processo de desconstrução deste imaginário social racista.

📸 Foto: Acervo Pessoal