1. Como você percebe a transformação da sua identidade musical desde os primeiros contatos com o acordeon até se tornar a Madame Forró?
A sanfona foi meu primeiro instrumento. Comecei com 23 anos e de forma autodidata.
Tive uma vida de muitas viagens e andanças, e a arte sempre esteve ligada a esses movimentos.
O forró me deu um norte, concentrou a minha energia e foi através dele que realmente me envolvi na música e comecei a estudar de fato a sanfona e o canto.
Minha identidade musical está se construindo por meio do projeto Madame Forró. Antes disso, a música era um acompanhamento para minhas performances de dança e circo.
Assim, comecei dançando e hoje sou uma musicista que faz dançar. Amo ver o mundo girar!
2. O que a sanfona representa para você emocionalmente e artisticamente, e como esse instrumento moldou sua forma de se expressar no palco?
A sanfona foi, primeiramente, uma companhia para domar um sentimento de solidão. Ela me ensinou a transformar essa solidão em solitude até amar essa solitude.
Também, no meu imaginário francês, o acordeon é o instrumento predileto na arte de rua.
E a rua foi um palco que sempre me inspirou muito. Comecei nela, atuando com diversas artes, e continuo nela até hoje.
Amo tocar para o povo dançar. Isso me traz uma alegria gigante. A sanfona é uma festa, onde quer que chegue.
Para mim, ela é uma verdadeira companheira e ela me dá energia nas apresentações.
Mas hoje também sinto vontade de expressar outros aspectos de mim, além da sanfona, e até sem ela. E estou descobrindo como juntar tudo isso na minha expressão artística.
3. Qual foi o momento ou encontro que fez você sentir que o forró não era apenas um ritmo estrangeiro, mas um lugar onde você realmente pertencia?
Primeiramente, cada vez que estou tocando e alguém canta junto comigo, ou quando o público canta enquanto estou no palco, sinto que pertenço a essa cultura.
Ou quando participo de procissões ou de grandes rodas de sanfoneiros e sanfoneiras, como em Cruz das Almas (BA), Dom Inocêncio (PI), Itaúnas (ES), Recife (PE) ou ainda na Caminhada do Forró em Arcoverde (PE).
Sinto que pertenço quando luto junto com os colegas forrozeiros, participando da sua preservação, sem desistir, apesar das condições difíceis, valorizando e apoiando quem produz e mantém essa cultura…
Quando encontrei o último irmão vivo de Luiz Gonzaga, João Gonzaga, em Exu, e quando vejo todas as amizades que o forró trouxe para minha vida.
Quando percebo que, tocando, encanto os brasileiros.
Quando, no Natal, puxei o fole no Hospital de Arcoverde e vi tantas pessoas, pacientes e funcionários, cantando junto.
Porque o forró ecoa no meu coração.
Pertenço ao forró porque ele me toca.
Eu amo o forró. « Quem ama, cuida », alguém me disse isso algum dia. E, quando cuidamos, pertencemos.
4. De que maneira a música brasileira transformou sua visão de mundo e sua relação com a própria identidade francesa?
Na minha percepção, a música brasileira é, antes de tudo, coração e sentimento. Ela é generosa e abundante por natureza, enquanto percebo a minha cultura como exigente e racional demais em alguns aspectos.
Acredito que se eu não tivesse vivido todos esses anos no Brasil, nunca teria me tornado musicista.
O Brasil me libertou de algumas coisas que me travavam dentro da minha própria cultura.
A música brasileira me ensina a espontaneidade, o improviso, o balanço, o ritmo, o jeito descontraído, a confiança de que tudo dá certo, a alegria de tocar e, para mim, o mais bonito: a entrega.
Na verdade, o Brasil, além da música, mudou minha visão do mundo. Antes de tudo, essa cultura me ensina todo dia a fortalecer um olhar espiritual e humilde diante da existência.
Mas acredito que qualquer pessoa que se abra para outra cultura cresce com ela, não tem como ser diferente. Se confrontar com outra cultura é riquíssimo.
Me sinto privilegiada por poder viver essa experiência e sou muito grata por isso.
5. Quais são os maiores desafios de traduzir a poesia do forró para o francês sem perder a alma nordestina presente nas letras originais?
Os desafios para fazer versões em francês (que não são feitas por Inteligência Artificial) são respeitar a métrica e as dinâmicas vocais, preservar o sentido e deixar a canção soar musical e bonita também na outra língua.
Consigo chegar a um resultado que acho fluido e, de certa forma, poético em francês. Mas muitas músicas eu não consigo traduzir.
E sobre saber se a alma nordestina permanece é algo muito delicado; acredito que somente alguém que esteja conheça profundamente as duas línguas e a cultura nordestina poderia dar sua opinião.
6. Quando você adapta músicas tradicionais para o francês, o que você busca preservar e o que você sente que precisa transformar para que a canção dialogue com o público europeu?
Na Europa, existe uma comunidade de forrozeiros, principalmente pessoas que fazem aulas de dança.
Elas amam muito a dança e a música, mas, na minha opinião, poucas conhecem a cultura do forró.
Quando adapto as músicas, tento transformar o mínimo possível o sentido das palavras e das frases. Meu interesse é trazer aquilo que está dito dentro das canções da forma mais próxima possível da versão original.
Acho interessante que meus conterrâneos que amam dançar forró possam entender um pouco das letras.
As canções contam a história dessa cultura. Elas falam por si só e são riquíssimas.
Não estou adaptando para agradar o público francês, mas para que ele possa ouvir e compreender o que é dito dentro das canções.
7. Como você enxerga o encontro entre a tradição francesa do acordeon e a força rítmica do forró nordestino dentro da sua própria obra?
Me formei musicalmente no forró; quase nunca toquei música francesa. Até chegar ao Brasil, eu arranhava poucas coisas na sanfona.
Mas, mesmo assim, cresci na França até os meus 33 anos e sempre escutei música francesa, inclusive, em relação à música brasileira, conhecia apenas um álbum de João Gilberto com Stan Getz!
E claro, a música que ouvimos desde a infância nos molda, mesmo quando não somos músicos.
Me considero intérprete de músicas tradicionais, e minha « obra » está se construindo através das minhas músicas autorais.
A primeira « Caatinga » é um baião contando detalhes que me deixaram encantada nas minhas viagens pelo Sertão.
A segunda « Forró do Zé Bezerra » é uma homenagem ao Zé Bezerra, repentista, artista e artesão do vale do Catimbau em Pernambuco.
Acredito que essa junção entre minha cultura de origem e a minha cultura adotiva, seja bem perceptível nessas músicas.
Foi uma grande surpresa para mim compor minha primeira canção em português. E quanto à força rítmica do forró, ela é uma escola sem fim, rsrs!
8. Quais artistas brasileiros mais influenciaram sua forma de tocar e interpretar, e o que você aprendeu com cada um deles?
Essa talvez seja a pergunta mais difícil para mim, porque nunca pensei em imitar alguém.
Meu amor pelo forró foi crescendo aos poucos, na convivência com essa cultura, no dia a dia: nas feiras do Vale do Capão, onde vivi alguns anos e onde, todos os domingos, Igor Bastos, luthier, e seus amigos tocavam forró de pífano entre as barracas; com os artistas das localidades por onde passei - Igatu, Andaraí, Mucugê, Ilhéus, Itaúnas e Itacaré, entre tantas outras -; com meus amigos, a multi-instrumentista Cãmiula, de Amargosa e o forrozeiro Natureza de Itapetinga; com Marquinhos Café e Ranier Oliveira, com quem fiz algumas aulas de sanfona; e com Cau e Isa Reis, com quem fiz aulas de canto.
Claro que escuto sempre Marinês, Anastácia, Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino… e tantos outros artistas, antigos e atuais.
Mas quem realmente me influenciou, e continua me influenciando, são muitos artistas pouco conhecidos, que muitas vezes têm outra profissão e fazem forró no tempo livre. Foi com esse povo que aprendi e continuo aprendendo. Os forrozeiros anônimos dos quatro cantos do Nordeste são minhas maiores referências.
Mais recentemente, compartilhei momentos maravilhosos com Écore Nascimento de Teresina, Socorro & Mazé, de Taquaritinga do Norte, Mestre Assis Calixto, do Coco Raízes de Arcoverde, e Luiz Fidélis, de Juazeiro do Norte. Eles foram grandes inspirações para mim tanto para compor como para mergulhar mais profundamente ainda na musicalidade nordestina.
9. Quais elementos da música francesa você percebe que continuam presentes no seu estilo, mesmo dentro do forró?
Eu acho que o meu sotaque no canto e talvez o meu ritmo interno, sabe? Nasci na valsa e não no baião!
Minha forma de apertar os botões, a minha pegada… rsrs!!!
10. Em que medida você sente que sua música hoje é um território híbrido, onde Brasil e França não competem, mas se complementam para criar algo novo?
Apresento até agora um repertório tradicional e me sinto totalmente dentro do gênero Forró Pé de Serra. Sou sanfoneira pro povo dançar.
E apesar de ter nascido em outra terra, me vejo como parte de um movimento de preservação dessa tradição musical.
O meu sotaquezinho e as versões que eu canto na minha língua materna trazem um jeitinho diferente.
Tenho a sensção de trazer algum detalhe diferente dentro dum gênero musical amplo e riquíssimo com qual me indentifico profundamente.
Agradeço pelas perguntas.



