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domingo, 26 de julho de 2026

#SendoProsperidade com Mariângela Borba

A sabedoria atravessa pontes

"Concede ao teu servo um coração cheio de discernimento..." (1 Reis 3,5.7-12)

Por Mariângela Borba

Há leituras bíblicas que conhecemos. Outras, porém, nos encontram exatamente quando mais precisamos delas.

Faço parte da equipe de Liturgia da Igreja de Nossa Senhora do Livramento dos Homens Pardos, no bairro de Santo Antônio, centro do Recife. Nesta semana, fui convidada a proclamar, para a assembleia, a Primeira Leitura do 17º Domingo do Tempo Comum: 1 Reis 3,5.7-12.

Entre os compromissos do dia e as ruas bloqueadas por podas de árvores no caminho, cheguei à missa quase em cima da hora. Mas deu tudo certo.

Eu já havia lido aquele texto outras vezes, mas ele nunca me atravessara daquela maneira. Somente ao proclamá-lo para a assembleia compreendi que aquelas palavras já não encontravam a mesma mulher.

Na primeira vez em que li esse texto, não tive essa impressão.

O texto permaneceu.

Quem mudou fui eu.

Salomão poderia ter pedido riqueza. Poderia ter pedido poder, vida longa ou a derrota de seus inimigos.

Pediu discernimento.

Talvez porque soubesse que existem conquistas que só fazem sentido quando aprendemos o que fazer com elas.

Enquanto proclamava aquela leitura, lembrei-me da minha mãe. Graças a Deus, tive uma mulher que me ensinou, sem discursos grandiosos, mas pela própria vida, que o melhor caminho sempre seria o da sabedoria. Talvez por isso eu tenha escolhido uma existência diferente, procurando valorizar aquilo que realmente importa.

Hoje ela já não está fisicamente ao meu lado, mas permanece viva em cada decisão que tomo.

Algumas presenças não desaparecem.

Transformam-se em direção.

Curiosamente, poucos dias após celebrarmos o Dia Mundial do Cérebro, li uma reportagem reunindo pesquisas que mostram como a fé pode modificar a forma como o cérebro responde à dor, fortalecendo a esperança, a resiliência e até influenciando positivamente indicadores de saúde.

Celebrar o cérebro é importante.

Mas talvez ainda mais importante seja compreender que ele nunca caminha sozinho.

Porque nós também nunca caminhamos apenas com neurônios.

É justamente aí que, tantas vezes, ciência e espiritualidade deixam de competir para começar a dialogar.

Também não acredito no extremo oposto.

Não me convence reduzir a religião ao "ópio do povo", como sugeria Marx, nem transformar a fé na explicação única para todos os fenômenos da existência.

O ser humano jamais coube em uma única lente.

Talvez por isso me incomode tanto a antiga divisão entre naturalistas e humanistas. Ainda ouvimos, com certa frequência, a ideia de que quem pertence às Ciências Humanas "não faz ciência", como se investigar o cérebro fosse ciência, mas investigar o sofrimento humano não fosse.

Essa dicotomia empobrece ambos os lados.

Freud era médico.

Jung também.

Nise da Silveira, igualmente médica, revolucionou a psiquiatria brasileira sem abandonar o rigor científico.

Ao contrário.

Ampliou-o.

Inspirada pelo pensamento junguiano, percebeu que muitos pacientes conseguiam expressar, por meio da arte, aquilo que jamais conseguiriam colocar em palavras. As mandalas produzidas espontaneamente por seus internos não eram simples desenhos; eram tentativas da própria psique de reorganizar-se.

Quando a palavra falha, o símbolo fala.

Quando a razão se esgota, a arte continua.

Quando a dor silencia, a fé, muitas vezes, permanece.

Esses grandes pensadores atravessaram uma ponte.

Não abandonaram a ciência.

Ampliaram-na.

Compreenderam que cérebro, mente, cultura, símbolos, espiritualidade e relações humanas não competem entre si.

Formam uma rede de saberes que se entrelaçam na tentativa de compreender aquilo que nenhum deles, isoladamente, consegue explicar.

Ferenczi compreendia que o sofrimento humano torna-se mais suportável quando encontra um ambiente capaz de acolhê-lo. Talvez a fé também funcione, muitas vezes, como esse lugar interno de acolhimento. Ela não elimina a dor, mas impede que ela ocupe todo o espaço da existência.

Já Contardo Calligaris observava que vivemos numa época profundamente contraditória. Nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão distantes. Buscamos transcendência, mas frequentemente produzimos relações superficiais, imediatistas e frágeis.

Talvez por isso a oração de Salomão continue tão atual.

Enquanto insistimos em pedir resultados, ele pediu discernimento.

É isso que eu também peço.

Enquanto desejamos que toda dor desapareça, talvez o primeiro passo seja aprender a atribuir-lhe sentido.

Hoje percebo que Deus não respondeu ao pedido de Salomão com uma moeda.

Respondeu com uma bússola.

Talvez seja essa a verdadeira prosperidade: desenvolver sabedoria suficiente para integrar aquilo que insistimos em separar.

Porque o ser humano é cérebro.

É corpo.

É símbolo.

É arte.

É afeto.

É cultura.

É transcendência.

Hoje continuo desejando o pão — e com razão.

Mas compreendi que, sem uma bússola, até quem encontra o pão pode acabar se perdendo.

Talvez Salomão nunca tenha pedido menos do que imaginávamos.

Ao pedir discernimento, pediu exatamente aquilo que permite encontrar o pão sem perder o caminho.

E talvez a verdadeira prosperidade comece exatamente aí.

Mariângela Borba é jornalista (DRT-PE 4095), especialista em Cultura Pernambucana, produtora cultural, pesquisadora da palavra como território de poder e autora da coluna #SendoProsperidade. 🌻